Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Possuída



Dançamos.

Te trago a minha terra, entre o fogo daqueles iguais a tu. E dançamos. De corpos colados em movimentos firmes, dançamos com postura, com precisão. Te conduzo por movimentos suaves e bruscos, ao ritmo dos estalos da chama. O piano toca sozinho e o baixo acompanha. Lá em baixo estamos. A curiosidade te trouxeste aqui, e não se arrependes. De face colada uma a outra dançamos segurando cada qual uma ponta de uma lâmina. A gilete entre nossos dentes dão o clima da tensão. Não podemos errar os passos, não podemos largar até que a música acabe.

Ao som da última nota tu sorris, soltando a lâmina, que então brinco com minha língua. Em um giro de bailarina percebes que nos encontramos em teu quarto. As cortinas estão em chamas, o papel de parede queima como embrulho de presente, daquele seu natal perdido. Da janela aberta se vê apenas o breu absoluto de uma madrugada coberta pelo véu da fumaça. O calor do quarto disfarça até a frieza de meu sangue sob a pele ardente. Sem demora as paredes já são barreiras de fogo incandescente, produzindo um manto negro que flui pelo teto. Não é pelo calor, mas já estás derretida. Deitada, observa com olhar sonolento enquanto manejo a lâmina com precisos cortes, deixando-a nua.

Jogando a lâmina de lado, escorrego meu corpo até meus lábios tocarem os teus. Com o peso do meu corpo sobre o teu e minhas mãos te envolvendo, já estás totalmente entregue a possessão. Que se dá lentamente, enquanto meus lábios tocam todo o seu corpo, parte por parte. Logo, em minhas mãos se encontra uma corda negra e teus olhos brilham. Peço que fique de joelhos. A textura áspera da corda desliza suavemente sobre corpo, dando voltas e pressionando pontos específicos. Te deito de costos para cima, e intercalando entre beijos e mordidas, prendo tuas mãos e pés. Totalmente subjugada, agora estás pingando; não só de suor.

Te meço e avalio, com uma vara de cane em mãos. Tua alma possui muitos pecados para expurgar, e como um caído, servirei devidamente à meu propósito. O primeiro acoite é bem forte, aproveitando enquanto não está com a carne dormente. Os golpes subsequentes distribuem bem a dor, por toda a tua bunda. As marcas ficam evidentes e sua virilha se mantém contraindo pedindo pelo alívio. Sentes seu cabelo ser puxado, ao mesmo passo que algo desliza para dentro de ti. Uma lágrima de alívio e prazer lhe escorre pela maçã do rosto, segue pela mandíbula e desliza pelo pescoço. Dedos firmes envolvem seu pescoço enquanto sentes impactos rítmicos no quadril. As beiras da cama começam a pegar fogo, mas é em ti que arde algo. Teu quadril se mexe involuntariamente, tua coluna se contrai e uma explosão de prazer te deixa a ter contrações por todo o corpo.

Nos noticiários do dia seguinte foi anunciado um estranho caso de combustão espontânea.

.

domingo, 22 de junho de 2014

Possessão



Ali estás, parada, distraída. Meu olhar te analisa da cabeça aos pés, mas anseia por um contato visual para dissecar tua alma. E a assim acontece, ao encontro dos meus tu sentes como se estiveste nua. De alguma forma sabes que de mim não escapa nada. Agora a presa tem total noção da perseguição, tal como antílope ao encontrar felinos olhos em meio ao mato seco. Entretanto não corres, se mantém no lugar, congelada; ainda pensando sobre como reagir a tamanha sensação de ser observada. Teu corpo já reage te preparando para ser dominada, sequer pensas em fugir. Não é bem do teu instinto. Ao contrário, escolhe o local do abate, e viras o jogo ao deixar escapar um sutil sorriso no canto da boca, vira de costas e segues andando até um beco escuro. Sabendo que, como uma sombra, estou em teu encalço.

Lá nos encontramos, onde sequer a tênue luz da lua ousa tocar, encarando-nos esperando pelo clímax da caça. Dou alguns passos e retomo o comando. Dedos te ordenam que se aproxime, com um movimento suave, seguido de um comando direto apontando o local a minha frente. Então te vejo caminhar, oscilando suaves movimentos com os quadris a cada passo. Teus olhos de piedade não parecem querer liberdade, já buscas entregar-me toda de uma vez. Ao se aproximar tanto de mim, tu percebes o que antes não vias, chifres curvos por entre os cabelos penteados para trás, assim como dentes um tanto mais pontudos que o normal em meu sorriso que sustenta um cigarro aceso. Agora encontra-te a distância de um sopro, sentindo o cheiro da fumaça que exala de minha boca. Jogo fora o cigarro e toco suavemente teus cabelos longos com meus dedos passando próximos a teu suave rosto. Instintivamente fechas os olhos. Levanto teu queixo com o nó de meu dedo e peço para que abras a boca. Me obedeces como se já houvesse sido previamente treinada. Espera por um presente ou uma confirmação de tua invocação. Me trouxeras pois querias algo. Mulher tão pura e de família cristã, mas cheia de pecado que atraem qualquer demônio. Cuspo em sua boca, e empurro suavemente teu queixo para que feche a boca. Você engole.

O pacto está feito, e agora restaste apenas a ti, sozinha entregue de joelhos com as mãos entre as pernas. Delirando perante a imagem da próxima visita, estás condenada ao que querias, porém não se arrepende.
Havia se entregado há muito tempo atrás.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Zero



No escuro abissal do éter espacial uma figura dantesca de proporções titânicas queimava feito uma estrela demoníaca.

Para meu total terror, preso naquele breu infinito sem conseguir sair do lugar, pude perceber que a odiosa presença possuía o que pareciam ser olhos; apesar de a sensação que tive é de que eram cavidades ocas. Seus olhos de buracos-negros transmitiam uma perversidade tétrica e o descomunal corpo celeste me fitava concentrado, o que gerou em meu âmago o maior dos horrores que um ser humano é capaz de sentir.
Girando em movimento perpétuo, lento e contínuo, esperava pela morte enquanto o temível astro mantinha as cavidades oculares obscuras em minha direção, e uma certeza crescia cada vez mais: de que estava a me encarar. Se fazia presente uma sensação de aproximamento sutil, quase impossível de notar.

Levaria uma vida inteira até que tal profana existência me puxasse com sua inexorável gravidade, o que demonstrava o quão longe encontrava-me do maligno titã espacial. Ainda assim seria uma questão de tempo até que fosse devorado por suas chamas negro-púrpuras oscilantes, formadas por fusões nucleares incessantes. Tal ser emanava toda sorte de sentimentos e sensações negativas, como um orbe formado de todo o mal universal concentrado em um único ponto blasfemo.
Sou incapaz de quantificar a quanto tempo me encontro perdido em meio ao vácuo, e sequer lembro como aqui vim parar. Poderiam ser anos, décadas, séculos, eras, éons; não consigo definir. Talvez a massa do objeto possua propriedades que o façam distorcer mais o tempo do que o espaço, senão já teria sido puxado feito um marinheiro preso a uma âncora em direção as profundezas do mar.

É possível que seja tudo um sonho, só isso explicaria. Esse era meu norte na tentativa de me manter são, enquanto as estrelas mantinham seu movimento constante na abóboda giratória. Por vezes tinha a sensação de estar parado e o universo que na verdade se mantinha em movimento a minha volta.
O frio sideral despertou ideias jamais desejadas antes, subitamente me peguei a pensar que não seria de todo mal ser engolido por tal ente herege. Ao olhar diretamente em seus ímpios olhos vazios me senti desfazer em camadas. Traje, pele, carne, ossos e alma separados pela velocidade do movimento no qual me encontrava em direção ao globo em brasa. Em resposta aos meus pensamentos, anunciando sua consciência viva, a entidade passou a exercer uma força misteriosa de atração sobre meu corpo, de tal forma que pude sentir algo como vento, mesmo não existindo ar a minha volta.

Ao me aproximar do centro da esfera sobrenatural, me senti desfazer, enquanto minha mente explodia em uma epifania de pseudo-memórias de outras vidas e existências, se mesclando e montando uma espécie de quebra-cabeças feito de fotos. Para então todas serem queimadas por um fogo negro que aliviou meus pensamentos, limpou minha memória, desfez minhas ideias, desfragmentou minha personalidade e anulou minha existência...

domingo, 24 de novembro de 2013

Armadura



Passos vagarosos são ouvidos ao longe, abafado pelo farfalhar das folhas ao vento apressado. Está um contrastante clima quente de brisa gélida e em toda a volta enxerga-se apenas a maciez pálida de uma densa névoa, da qual não se pode enxergar sequer o céu, tornando impossível distinguir dia de noite. Apenas se faz possível sentir o chão ou vê-lo chegando bem perto, dissipando a opressora neblina. Toda a noção de espaço e tempo se distorce no meio da paradoxal escura claridão; tudo é branco, em tantas camadas que se torna um gradiente de cinza.
Determinado, segue a procura de algo, passos firmes tateiam à espera de que o chão não lhe suma sob os pés. Ao encontrar um marcação, em forma de cicatriz na terra seca, se prepara para escavar o local demarcado. A procura se torna árdua enquanto segue perfurando o solo com um profundo buraco, por onde a névoa escoa feito um líquido fantasmagórico.
As retiradas de terra cessam ao sentir um objeto sólido ressoando com o impacto. Uma pedra negra e opaca, o universo aprisionado em um diamante, que logo é retirado e trazido à superfície. Não era exatamente o que esperava, mas o surpreende no que se tornara aquilo que um dia vira afundar.
Por mais inflexível que pareça, o artefato pode converter-se maleável em altas temperaturas.
O som de uma abertura metálica e pesada lentamente sendo aberta soa pelo ambiente, e do buraco proveniente de seu peito jorra lava que escoa para o buraco a pouco escavado. A forma bruta de carbono é então mergulhada no fogo líquido que a faz ficar flexível, emanando um fogo púrpura que ilumina o vapor a sua volta. Como barro flamejante é manuseada e trabalhada por mãos calejadas, que não se importam com sua temperatura abrasante. O esforçoso trabalho artesanal se da entre pancadas e compressões, dobras e apertos exaustivos até que aos poucos se tornem formas anatômicas grosseiras. A água que lhe escorre pelo corpo devido ao esforço resfriam os luminescentes objetos formados a partir da peça original, engrossando ainda mais o nevoeiro. Com extremo cansaço e muitas queimaduras o artífice se deita ao lado de sua obra e descansa por incontáveis e imperceptíveis seis dias e seis noites.
Com a ferida da terra já cicatrizada e o tempo limpo, no qual agora se faz possível enxergar as estrelas, levanta-se para observar o arredor. Nada reconhece, mas não sabe se andara muito, ou se sua memória que já não é mais a mesma. É possível enxergar centenas de marcas e feridas, e uma abertura no peito que agora jaz vazia e profundamente escura.
De forma ritualística prossegue encaixando as peças do exoesqueleto moldadas para encaixar em seu corpo cansado. O traje lhe cai como uma luva, se adaptando como uma segunda pele e uma peça sobressalente se faz adequada; uma lâmina obscura sendo embainhada encerra a ritualística. Aos poucos se da conta de que o tempo está fechando, e ao reparar na luminosidade da lua observa não mais possuir uma sombra. Infla os pulmões professando os seguintes versos:

"Visto de volta o bom e velho pessimismo otimista
Onde espero de cada circunstância sempre o pior
Sem temer a má sorte do futuro desconhecido
Sendo assim por vezes surpreendido positivamente

Faço de minha densa sombra minha arma e armadura
Forjada no ardor de minhas dolorosas emoções vividas
Resfriada em meus obscuros prantos e odiosos pesares
Feita à minha imagem e semelhança, meu complemento

Que todo o meu passado, seja glorioso ou vergonhoso
Nenhuma vez seja negado, ou por mim desmerecido
Que as batalhas vindouras não sejam jamais temidas
Oh! Luminosa lua espectral que me observa dos céus

Não possuo mais treva, tão pouco sou cheio de luz
Me faço humanamente cinza, puramente indecifrável"


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Epitáfio



Fim.

Conforme a pá entra em contato com o solo úmido, sinto o impacto percorrer meus braços até meus ombros, duros com a tensão do fardo que carrego. Demorei muito, mas duzentas e oitenta e seis linhas depois eu pude finalmente dizer ao ar tudo que precisava ser dito. Agora minha boca é como o terno de madeira encostado ao lado, sob a chuva pesada que o enxarca. Minhas palavras foram gravadas em um pergaminho feito de meu próprio coro, colocadas em uma garrafa e solta ao oceano profundo, afundando com o peso das emoções expressadas.

Cavar na chuva não é nem um pouco fácil, a terra fica úmida e pesada, e a lama me suja até os joelhos, assim como meus antebraços. Mas não posso mais esperar a torrente passar, certas coisas precisam ser feitas, não importando as circunstâncias. Verbos desnecessários encheram o esquife de madeira maciça, sentimentos lacrados que tornam poucos os sete pés habituais. O erro é cavar um buraco que não se consegue sair, deixando o túmulo exposto, e você escondido. Após todo esforço, subir não é fácil, mas é o preço que se paga por cavar uma fenda tão profunda. De lábios selados está no caixão um anjo caído. A costura em seus olhos e boca são para assegurar que não vaze as memórias que com ele foram seladas.

É Samhain e não existe momento melhor para lidar com os mortos. Será a última vez que esse espírito amaldiçoado andará pela terra, voltando para seu confinamento na badalada da meia noite. Após passar as correntes em volta do caixote me certifico de trancar bem os cadeados. Não vale a pena subestimar a força do que ali está guardado, já fizera grande estrago no passado. Por precaução até mesmo suas mãos e pés se encontram atados para que não haja como fugir; está sendo enterrado vivo, é verdade, mas jamais irá morrer. Só precisa se manter aprisionado a muitos metros abaixo da terra, que aos poucos se renovará sobre sua cabeça até que seja esquecido que ali houvera algum abjeto sequer.

Seu dom da imortalidade é sua maldição, e suas asas foram cortadas, muito antes de ser necessário sumir com sua existência, pelas mãos de outro de sua casta. Ao som da tempestade vou descendo a corda até que ele seja coberto pela água que já acumula no fundo. Boa parte do trabalho já foi, sequer posso sentir o suor escorrer no meio dessa tormenta. As gotas caem com força e são geladas; passam limpando a alma e carregando a sujeira acumulada em minha aura enlameada.

Agora só falta jogar terra por cima, e a pá parece pesar uma tonelada neste momento, talvez pelo cansaço de já ter cavado, entretanto uma vez começado o serviço vou até o fim. A cada porção de terra que colide com a tampa feita de magnólia, ecoa fortemente pelas paredes da cova uma vibração que faz minhas pernas tremerem. Mesmo na metade do caminho ainda é possível ouvir os murmúrios da alma penada que resvalam em meus tímpanos como um sussurro bem próximo, até ser silenciado pelas últimas esmurradas da pá contra a terra; que findam o esforço. Enfim uma lápide é posta, com apenas os dizeres "Adeus". Nada mais precisa ser dito e com o término da chuva se percebe um silêncio sepulcral, nem mesmo o vento ousa assoviar.
Ninguém visitará o lugar, e flor alguma será deixada em homenagem. Limpo o suor do rosto, me levanto e sigo para o caminho que já trilhava; rumo ao incerto.

Começo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Fragmentos D'Alma



"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus."

Passos lentos ecoam pela adoecida casa, desgastada pelo tempo e já cansada de assim ser. Passos lentos levados por joelhos frágeis e pés calejados de contato com o mundo. Um senhor, beirando os três dígitos, caminha em direção ao seu aposento mais vívido e confortável, a sala de livros. Ele poderia chamar de biblioteca, mas prefere deixá-la mais aconchegante e humilde.

Dedos enrugados cobertos por uma fina seda viva se arrasta pelo nariz, já protuberante pela idade, empurrando a fina haste metálica de um pequeno óculos. Com a firmeza de seus ossos, e o que lhe sobra de força nos músculos, ele posiciona uma antiga cadeira de madeira escura, trabalhada em entalhes curvos, para o centro da sala. Não pega um livro sequer. Apenas senta-se e fica a observar tudo o que já leu; Tudo o que um dia soube e tudo no que um dia acreditou.

Divagação. Com seus membros cada dia mais enferrujados e seus órgãos sensoriais gastos, cada vez menos sensíveis, não lhe sobra muita coisa senão pensar. Em tudo que fez e deixou de fazer; o que poderia ter feito e o que quase aconteceu. De fato nem mesmo as probabilidades lhe atraem mais. Com o cenho comprimido, coçando os delicados fios brancos que lhe decoram a cabeça ele se concentra na admiração do todo.

Hipnotizado pela vista da colorida, mesmo que desbotada, combinação de barras verticais, se deixa levar pelos devaneios mais insanos. Seus olhos azuis vislumbram então uma ideia, como um relampejo em sua frente. Seria um raio na janela?

Sem saber se fora sua surdez ou desatenção que o fizera não perceber o barulho, ele se vira na cadeira e repara na janela aberta. Uma suave brisa de outono sopra agitando as cortinas translúcidas. Não está chovendo. Talvez não tenha sido um raio. Talvez...

O ancião então ajeita sua longa barba branca e deposita seu cotovelo ossudo no braço acolchoado da cadeira, apoiando em seguida sua cabeça preguiçosa. Então se põe a pensar:

"Afinal, o que posso dizer sobre a realidade; depois de ver coisas impossíveis acontecerem, e de ver o lógico ser o mais improvável?"

Ainda mais agora, com suas noções distorcidas pelos ciclos, não saberia diferenciar o irreal do real. Cada um desses livros amontoados, sobrepostos e encostados, são noções tão distintas da totalidade. Dentre os mais sinceros estão os de fantasia e ficção, que deixam transparecer os maiores anseios da alma humana. Desde garoto nunca subestimou o poder das palavras, e agora compreende melhor o que jamais concluíra depois de tantos versos, capítulos e compêndios.

Eis que pela janela entra um gélido sopro. Um Vento instigado pela Curiosidade se aconchega em seu colo. E sem perceber, o sábio senhor é pego por um sussurro:

As palavras possuem alma.

Não apenas isso - pensa ele brevemente - elas são parte da alma humana. Cada significado e sentido é uma fagulha da nossa incompreensão com nós mesmos.

Sábios monges e o voto de silêncio, sábios animais e homens das cavernas.

Não criamos algo que já não existisse em nós mesmos, apenas nos dividimos, nos dilaceramos. E aos poucos fomos nos perdendo, sem saber o todo que nos cabe, e o quanto cada pequeno detalhe que não compreendemos nos faz falta.

Cada palavra, da mais sofisticada até a mais genérica; até mesmo as que discordamos e odiamos, são partes de nós. E assim ele coletara, uma por uma, para então finalmente encontrar de onde vieram.

As palavras possuem vida.

Elas nascem, crescem, se multiplicam, transformam e até mesmo morrem.

Sua consciência experiencia uma tempestade de ligações. Uma Epifania aos poucos o desperta. A trama da existência inteira parece se contorcer. Ele sente seu corpo derreter ao observar cada palavra que um dia já lera fugindo dos livros, cada uma com sua distinta forma física. O Vento assustado então foge pela janela, rumando em busca de algo pelo céu noturno.

Em um galho, próximo ao local está a Curiosidade pasma com tudo que despertara. Seus grandes olhos de felino e suas orelhas de raposa tremem de excitação. Excitação essa cortada por um Vento gélido, que lhe dá calafrios. Um pequeno inseto voa a sua volta sem parar, zumbindo em sua orelha. É a Culpa:

- O que você fez?
- Não sei ainda. Estou louco para ver o resultado.

O Vento irritado percebe como se deixou levar por uma das criaturas menos confiáveis, passando feito um tufão, arrastando as folhas das árvores. Voando para bem longe dali.

- Interessante, não? - Pergunta a pequena criatura de dedos finos, com um sorriso discreto na boca, de quem não consegue conter o entusiasmo.

Mexendo em suas pequeninas chaves que carrega em sua cintura, a criatura foge da bronca e vai em direção a casa - Mal posso imaginar tudo o que pode acontecer a partir de então. - Sua caminhada é interrompida abruptamente por um muro cheio de portas e gavetas. Estática, a Curiosidade decide observar seu obstáculo, e sem exitar tenta uma de suas chaves finas e compridas na fechadura principal. Se surpreende novamente ao ver um manto liquido se projetar do muro formando uma silhueta humana de capuz e trajes de monge. Em sua mão o misterioso ser traz uma ânfora, com uma boca em relevo, a qual sua outra mão silencia.

- O que fizestes criatura tola?
- Segredo? O que fazes aqui? Por que me impedes? Não faço nada além de meu intento primordial.
- Basta! Percebes o que está acontecendo? Ele está alterando toda a trama do mundo, interna e externa. Não posso falar mais que isso. Enquanto não resolveres este problema, terás a Culpa em seu fardo.

Cavando as costas da Curiosidade com o intuito de se esconder e se enterrar para se esquecer, a Culpa encontra o Desespero emergindo e se arrastando. Preocupado e inseguro, ele decide correr atrás de qualquer um que pudesse prover algum tipo de ajuda, deixando a Curiosidade a se coçar.

Após sair das costas da Curiosidade, o Desespero corre perdido gritando por ajuda. Suas pernas tortas cheias de pequenos cortes tremem e seus joelhos ossudos se chocam. Em um dos ombros está a Ansiedade, um pequeno mamífero respirando tão rápido que sua respiração solta um barulho incômodo. A irritante criatura de olhos esbugalhados arrasta suas garras na pele de seu hospedeiro de forma inquietante. Do outro lado vemos a Preocupação que intercala entre cada "e se" uma bicada na cabeça do pobre Desespero.
Caído no chão, o disforme ser olha para frente e enxerga um pé de mármore. Levanta seus olhos e observa uma fria imagem, a lhe fitar de cima para baixo.

- O que está acontecendo? Nada está fazendo sentido.
- Eu, não... Eu não sei. A Curiosidade. Ela fez algo. A existência está em choque. Epifania toma conta dos pensamentos. O velho está se desfazendo. - balbucia com as palavras se atropelando o Desespero.

A Razão então demonstra interesse. Seu senso lógico agora monta o quebra cabeça e ela compreende o monstro, que agora a enxerga melhor: Figura de mármore e rosto neutro, seu cabelo retilineamente escorrido para trás. Em suas mãos porta um escudo e uma lança. Uma coruja lhe sussurra algo no ouvido e ela então afirma categoricamente:

- Tenho a solução! - Com um esfregar de mãos, razão cria uma borboleta azul e então a assopra. A borboleta segue em direção a casa, deixando um rastro luminoso de pequenos pulsos elétricos.

De volta a casa observamos como tudo começa a se desfazer em um redemoinho de estilhaços e farpas. Na antiga e detalhadamente entalhada cadeira, encontramos apenas um líquido escorrendo e se esparramando no chão. Logo a frente está a Epifania, de corpo belo e curvilíneo, mas com patas de bode e grandes chifres curvados para trás. Em sua mão está um cérebro com as vértebras se enroscando em seu braço. Ela saboreia com prazer a vibração que aquele órgão emana.

De súbito a porta é escancarada por outra beldade. De rosto mais severo com olhar concentrado e mãos intimadoras a apontar para entidade demoníaca.

- Chega desta libertinagem! Dê-me este cérebro! Pare com essa loucura!
- Ele que me chamou. Ele me queria aqui. Você nada pode fazer.

Uma rajada de vento agita as vestes da Sanidade. O que não acontece com seu cabelo devidamente preso em um coque. Ela sabe que nesse momento nada pode fazer. Está presa a lógica da sagaz Epifania, mas se vê surpreendida por uma chance de virar o jogo. Uma borboleta adentrando pela janela, zanza através da sala e para no encosto da cadeira.

Os ventos se agitam e com um turbilhão de fagulhas eletroquímicas, o pequeno inseto se transforma em uma jovem donzela de feições delicadas. Em suas costas ainda preserva enormes asas de borboleta.

Apesar de delicada aparência, sua cara demonstra uma firmeza de decisão. Ela encara suas companheiras de sala e chama a Sanidade mais para perto. Com um giz, desenha em volta da cadeira um quadrado equilátero, preenchido por um pentagrama com símbolos e hieroglifos jamais antes vistos.

- Prepare-se.

Epifania se vê com a Dúvida a lhe incomodar. Uma garotinha de cabelos cacheados, que não para de perturbá-la. Estática, não sabe o que fazer. Com a distração nem percebe que o cérebro agora se encontra a flutuar na cadeira com a coluna verticalmente alinhada com a base quase a tocar o acento, e o lobo occipital próximo ao encosto.

A Sanidade começa a se transformar, tornando sua pele brilhosa e reflexiva, se expandindo e se afinando. A Mente, batendo suas asas azuis, então começa a entoar um encantamento. Com seus braços arqueados e dedos bem abertos envolvendo a massa encefálica, ela decide rearranjar o que foi feito e mudar a noção recém concebida.

- Intelecto desfeito, corpo inato, personalidade rompida e ideias esquecidas. Quem vos fala é a Mente! É a alma! E lhes dou uma ordem. Recomponham-se. Se refaçam. O que um dia fora agora não é mais, e o que soubera sequer existiu. Invoco e rogo que me ajude. Ilusão!

O que se vê é algo próximo ao caos. Uma grande mistura de cores, cheiros, tatos, sons e sabores explodem, quase perdendo o controle. Tentáculos surgem e aos poucos vão se agarrando a cadeira, até que a Mente entoe:

- Para definir o mundo, lapidar as possibilidades, reescrever a verdade. Com a temperança de um deus, reconstruo aqui a maior das ilusões: A Realidade!

A janela bate gelando o sangue do ancião com o susto. Ele havia caído no sono. Já estava tarde e esfriava cada vez mais. Decidiu que era melhor fechar a janela e ir para o quarto, estava frio e não queria pegar um resfriado. Afinal de contas, apesar do cansaço de uma vida longa, ele queria, mais que tudo, viver. Sem saber de onde vinha esse ânimo todo, ele viu um último sopro sair pela fresta da janela ao fechar. Um vento se projetou acariciando seu rosto, como um suave beijo de boa noite. Era hora de deixar os livros de lado - pensou ele.

- Irei aproveitar a manhã seguinte. Quem sabe viajar. Já faz tanto tempo...

.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Fiddler's Green



Em suas viagens por vezes ela se põe a pensar.
Sobre quão longe pode ela estar de seu querido amado.
Através do horizonte é possível apenas ver uma tênue linha que liga o mar e o céu. E como um pequeno borrão de tinta, ao longe é possível ver seu veleiro.
Nele vela seu maior segredo, a lembrança de um local tenro e irreal. O qual ela sempre pode visitar, mesmo parecendo tão etéreo e volátil.
Como um novelo ela se desenrola deitando sob o céu pálido, tão claro que lhe incomoda os olhos. Solta a deriva reflete se as coisas não são mais as mesmas, ou se tudo se mantém tão intenso apesar da aparente calmaria.

Com a noite chegando ela acende uma vela, e se deixa hipnotizar pela chama débil e tremula. Seus olhos vidrados revelam a chama interna, e mesmo com o vento aquela tímida centelha luminosa não se apaga.
Logo o fogo se revela uma borboleta ardente a fugir de seu suporte e com o olhar ela acompanha sem pensar em nada. Se deixando levar pela ilusão fantástica segue a borboleta com o olhar, sem se dar conta que já não está mais presa ao seu suporte, assim como ela.

Flutuando atrás daquela faísca dançante ela vê cair o véu da realidade, viajando para além de apenas memórias. Ela chega em um lugar, deslocado no infinito dentro de si mesma. Um lugar do qual ela nunca irá esquecer o caminho. Com a forma de um corvo, a viajante pousa sobre uma árvore dentro desse paraíso surreal. A paisagem é de um parque aconchegante, com luzes douradas e uma neblina sutil. Não está frio nem quente demais, e todas as árvores se encontram em tons vivos pontuadas por flores, que agora já forram o chão.
Se transformando em uma coruja, voando pelo parque, através de seus olhos de pássaro ela vê o eco de um movimento passado. Um vulto estava na ponte observando as pedras, outro subindo as árvores e outros nos brinquedos dos parques. São como passados acontecendo simultaneamente.
A jovem volta a sua forma normal ao avistar bem a sua frente, um garoto com a mão no peito de um sorriso suave. Balançando suavemente ele a convida a se aproximar, fazendo com que ela alivie suas dúvidas.

"Eu estou sempre aqui"

Sentando-se no balanço do lado ela se sente segura novamente, recostando-se sobre o ombro do rapaz. Os dois conversam por horas, dias, séculos. Ela desabafa seus anseios, sobre ter vontade de correr o mundo, mas ter medo de tropeçar, de cair no vazio do esquecimento. Ele se levanta, estende a mão e diz:

"Corre comigo"
            

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A sombra da lua



Em uma noite fria de ventos cortantes, os ventos assoviam ao passar carregando um vulto. A Lua se esconde timidamente por entre as sombras formando um fino "c" brilhante no céu profundo como um abismo para o infinito. Uma espessa neblina inebriante traz o cheiro silvestre despertando desejos escondidos.
No alto de um morro entre a selva de pedra e um pequeno bosque se encontra em repouso a presa do espectro, deitada sob um fino lençol de seda recebe a luz da lua pela fresta da janela aberta. A névoa passa suavemente pelo batente escorregando para dentro e se espalhando pelo cômodo. Junto, acompanhando o fluxo, vem a sombra de uma tentação, um íncubo vagante.

Ele fica por um tempo a observar a vítima, ouvir sua respiração, sentir a vida pulsando. O tempo passa e ele sequer percebe o quão hipnotizado ficou por sua beleza. A donzela de aparência delicada exala juventude em sua face angelical, de pele pálida como marfim e cabelos castanhos escuros como mogno. Feito uma boneca de porcelana,seu corpo está delicadamente disposto como se colocado com muito cuidado, coberto deixando-lhe a mostra apenas os ombros desnudos e o macio pescoço agradavelmente torcido para que a cabeça repouse sobre o travesseiro macio.

O estranho visitante se põe a flutuar sobre a tenra jovem e com um melodioso sussurro em seu ouvido invade sua mente, e adentra em seus sonhos.
O provocante íncubo então tenta, como nanquim em água, tirar toda a pureza da jovem, contaminá-la com seus venenosos impulsos. Mergulhando para as profundezas mentais ele a encontra e se prepara para começar possessão, mas se depara com algo que não esperava.

O semblante a jovem delicada muda quando ela abre os olhos e o encara, com um sorriso sinuoso nos lábios, se levanta e se aproxima do que até então era seu predador. O demônio surpreso congela e apenas observa, a cada passo a presença da jovem se tornar mais sombria e sensual. A turva visão onírica começa a tomar tons quentes e a névoa se torna leve e quente formando pilares de vapor. Os dois ficam a se encarar numa distância de um palmo entre os lábios, e ele compreende que está de frente para um igual, se aproxima e beija a súcubo que o seduz e uma forte sensação de calor queima por dentro das duas almas.

E com um susto um jovem rapaz acorda de seu sono profundo, olha para a lua crescente como uma cicatriz no céu, e se pergunta se a jovem do sonho era real e se ele a veria novamente...
      

sábado, 23 de abril de 2011

Ser errante da lua



Um dia um ser de magnitude nula, desconhecido e sem nome, surgiu de uma gota de orvalho.
Se desenvolveu sob o brilho da lua e virou um cristal vagante, tentando descobrir o mundo.
Um tanto quanto cristalino e transparente, puro tinha um brilho e encanto.

Outros pequenos seres moldados de barro já não compreendiam aquela pequena forma que olhava o mundo com tanta sede, e quase não falava. Sempre observador.
Desde que era um homúnculo formado já sentia aos poucos sua forma refletir o entorno. Seu reflexo brilhar a partir de suas novas admirações e assim foi sendo moldado através do brilho dos outros. Aos poucos adquiriu uma forma multi-facetada totalmente diferente, fora dos padrões, mas nunca alcançava suas fontes de inspiração.

Vendo o quanto tais tentativas o trincavam foi se fortificando, criando alguns espinhos e camadas sobressalentes até que não vissem mais seu brilho. Sob o fogo de constantes atritos tomou nova forma e enquanto sentia-se maleável pela alta temperatura se focou em ser o perfeito receptáculo das chamas que o hipnotizavam, mas se esqueceu de sua própria reluzência. O fato só piorou... e aos poucos ele começou a rachar, e ruir.
Então de súbito passou a arrancar camada por camada de seu ser, a crosta escura que criara.

Em uma noite que não teve luar estirado sob uma poça ele reparara seu brilho voltando aos poucos ao perceber que alguém o queria ver brilhar. Mas a ironia da situação é que ele não conseguia dar o que tanto esperou de outros e ainda assim refletia fortemente o brilho de admiração por aquele ser brilhante, de formas obtusas e com alguns trincos, mas que não diminuiam sua luz.

Aparentemente os dois passaram por fogos parecidos, mutações semelhantes. Como um espelho ele se via ali, como outro. E então se levantou da poça no chão, e sempre por onde andou quando via seu reflexo lá estava o outro ser inspirador. Assim o pequeno ser retomou suas forças pela busca da brilhante lua no céu negro e cheio de núvens.
E lá estava ela, em sua totalidade, só lhe faltava pegar.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Reflexo


Um jovem palhaço acorda de um sonho. Pálido corre se vestir e por a maquiagem. Traveste-se de Arlequim, enfrentando a ordem das coisas; ele tenta mudar. A passos largos anda confiante, pois sabe que tem Colombina a seus pés. Anda até o espelho e ainda se vê Pierrot, mas não perde o entusiasmo, a inocente colombina acredita piamente que ele é um Arlequim. Anda sobre as nuvens mesmo sabendo que é impossível voar.

Em tamanha insensatez, de Colombina ele passa a duvidar: Seria ela realmente Colombina?
Aqueles que usam máscaras em ninguém conseguem confiar. Inquieto e suspeito, todos os dias a pergunta: E hoje tu me amas? - E ela respondia: Claro meu querido! 
Desconfiado da resposta rápida ele exclama: Então me prove!

A cada novo encontro a jovem tentava provar de uma maneira diferente, e a cada nova tentativa se tornava mais confusa sobre seu verdadeiro sentimento. A verdade é que Pierrot perguntava-lhe algo que não queria ouvir a resposta, pois carregava em si a certeza de que era impossível alguém amá-lo. Pierrot em seus delírios platônicos não sabia o que era amor. A cada novo dia que perguntava tentava compreender do que se tratava, e a cada exemplo que Colombina dava, Pierrot aprendia sobre o que ignorava.

Colombina aos poucos, de tanto sugada por Pierrot, só via nele frieza e já não se achava mais em seus olhos, se perdera na busca incansável de alguém que não estava lá. Ela amava o vazio, ou talvez apenas uma máscara. O encanto havia acabado. Pierrot surpreso tirara sua falsa imagem de Arlequim, para ser com sua amada mais sincero, ouvindo em resposta: Eu sempre soube.

Sentado pensativo, borrando toda maquiagem, lembrou que sempre fora Arlequim e que na verdade apenas em seu sonho ele fora Pierrot. Percebeu então quão inútil fora toda essa encenação, mas agora já era tarde demais ele se tornara definitivamente o que via no espelho.

.