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segunda-feira, 9 de outubro de 2017
quarta-feira, 4 de março de 2015
A Náusea
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| Great storm in the Downs by Frederick Whymper |
Sartre foi sábio em assim definir tal conflito existencial. Esse enjoo de si mesmo, perda do tato e intelecto embrulhado. Uma maresia moral proveniente do balanço do mundo. Dos mundos, internos e externos. Eco de um âmago ulcerado, ainda não supurado. Vontade de se esvair em vômito o vazio que há dentro.
Talvez os caminhos da mente sejam traçados em mares revoltos, por naus que, quando sortudas, aportam e lá ficam. Vida em alto mar facilmente leva a ruína. Perda do norte. Naufrágio em seguida.
- Mas que ansiedade! É só o balanço do mar. Pior seria, se balanço não houvesse. De nada serve prumo, sem vento na vela.
- Este é o problema! Não o há; e esse balanço do mar, a nenhum lugar nos levará.
- Ao menos já passou a tempestade.
- Ou ainda está para chegar.
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Insatisfeito
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| Troublemaker - Nick Ray McCann |
Já fazem meses desde a fissura latente, mas não lhe darei os créditos por roubar o meu sentir. Algo deu muito errado no processo que me formou. Me tornei casca grossa.
Nada me cansa o suficiente, não costumo suar. Pareço ter uma resistência a dor fora do comum, é o que me disseram quando arranquei os quatro sisos de uma vez. Nunca chorei por um livro, ou um filme de romance ou drama. Na procura por uma crença, me tornei cético e perdi todos os medos que nos tornam humanos, o diabo está de prova. No primeiro gole inocente de um uísque dos fortes, sequer fiz careta. Já dormi dias no chão, passei dias sem comer, ou mesmo dormir.
E nada. Vivo como uma alma penada.
E você está ai, vívida. Não consigo entendê-la. Como pode viver esse cinismo hedonista? Esse brilho eterno de uma mente sem lembranças.
Não que eu não chore, não me emocione ou viva. Já me perdi em sentimentos demais, geralmente se manifestam em fixações obsessivas. Mas não mais. Agora nada satisfaz.
Uma lágrima escorre pelo hematoma roxo amarelado na maça do rosto.
E nada sinto.
Seu corpo em exercício intenso, tornam sua alva pele em um rubro manchado. Tão delicado quanto uma gema sangrenta, fluindo misteriosamente. Quase como uma reação alérgica ao prazer, ou a dor.
Faço um corte superficial, deixando deslizar o rubro néctar.
E nada sinto.
Seu olhar sempre fora pura fúria, ou total indiferença. Até mesmo seu amor, era uma manifestação da sua odiosa natureza. E seu perdão, parte do seu rotineiro desprezo.
Com um corte mais firme retiro a pele tal como a manga de uma camiseta, deixando a carne exposta em toda sua majestosa viscosidade.
E nada sinto.
Sua voz, macia feito um coração de alcachofra, é repugnante sem o tempero de suas emoções mais intensas. Sempre me arrepiou.
A cada peça de músculo que removo, misturada com ligamentos expõe os nervos, que traduzem como eu sempre me senti. Exposto, sensível.
Sensível como meu sexo, lhe usando a meu bel prazer, enquanto toco sua carne tenra.
E nada sinto.
Engulo, pouco a pouco, o sabor do seu pecado, assim como sempre engoli suas ofensas. Praticamente um esqueleto convulsivo. Já não parecemos tão diferentes. As tripas não possuem a assinatura de sua personalidade e fica difícil ouvir seus gritos enquanto se engasga em sangue.
E nada sinto.
De estômago cheio, me sinto igualmente vazio e não alcancei satisfação alguma. Simplesmente não consigo sentir, talvez seja melhor assim. Talvez você seja a culpada, mas então estamos quites. Aposto que não lhe sobrou muito...
o que sentir.
Sinto muito.
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Lúcifer romântico
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| The Flesh of Fallen Angel by Straightgunner |
O quadro clássico daqueles em estado depressivo em muitas vezes, é um problema de desajuste. Do não pertencimento à sociedade, o que metaforicamente seria estar longe de deus. Não incomumente acabam por seguir caminhos opostos ao da voz do povo. Seja por serem mais inteligentes, mais burros, enxergarem o mundo com mais clareza ou ruido. Perspectiva.
Infelizmente a alma humana possui suas necessidades, e há em sua natureza a necessidade de pertencer. Fazer parte, conectar. Aqueles perdidos, desajustados e desencaixados; descrentes de quase tudo no mundo, acabam muitas vezes depositando sua fé em um pertencer mais minimalista. Com a dificuldade de se encaixar em toda a trama de exigências e expectativas da sociedade, tais almas perturbadas acabam por escolher se encaixar, pura e simplesmente, com um único ser. Os malditos românticos.
As conexões acabam por ser desnecessariamente forte demais, assim como a esperança por aquele que o compreenderá plenamente se torna um pensamento recorrente. Alguns encontram felicidade através dessa prática, muitas vezes não por muito tempo, porém esse é o caminho mais difícil e muitos sobram nessa estrada sem mapa. No fim, talvez seja pior depositar suas esperanças em pessoas do que em ideias, por mais que elas sejam tangíveis e reais, diferentemente das ideias. Justamente por serem reais, estão sujeitas ao tempo, à mudança e a morte. E nesse platonismo, acaba por se esperar a materialização de uma ideia em uma pessoa. Que seu verbo se faça carne e te livre de seus pecados.
Your own personal jesus, someone to hear your prayers, someone who cares.
No fim, o sistema de funcionamento da máquina humana se mantém, e o desajustado acaba por aumentar sua distância da sociedade, o paraíso de onde poderia surgir seu redentor, com a qual precisa se lançar para barganhar relações, a fim de encontrar A pessoa. Deixando-o a encarar o abismo mental que se formou entre sua insatisfação e a realidade. Entre o que as pessoas podem lhe oferecer e os anseios mais profundos de seu coração. E não há cura para o desajuste, ele acontece naturalmente. E sobra ao desajustado seguir sua natureza e tentar conquistar suas expectativas sem nenhuma bênção para ajudá-lo.
É solitário andar à sombra de deus.
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domingo, 24 de novembro de 2013
Armadura
Passos vagarosos são ouvidos ao longe, abafado pelo farfalhar das folhas ao vento apressado. Está um contrastante clima quente de brisa gélida e em toda a volta enxerga-se apenas a maciez pálida de uma densa névoa, da qual não se pode enxergar sequer o céu, tornando impossível distinguir dia de noite. Apenas se faz possível sentir o chão ou vê-lo chegando bem perto, dissipando a opressora neblina. Toda a noção de espaço e tempo se distorce no meio da paradoxal escura claridão; tudo é branco, em tantas camadas que se torna um gradiente de cinza.
Determinado, segue a procura de algo, passos firmes tateiam à espera de que o chão não lhe suma sob os pés. Ao encontrar um marcação, em forma de cicatriz na terra seca, se prepara para escavar o local demarcado. A procura se torna árdua enquanto segue perfurando o solo com um profundo buraco, por onde a névoa escoa feito um líquido fantasmagórico.
As retiradas de terra cessam ao sentir um objeto sólido ressoando com o impacto. Uma pedra negra e opaca, o universo aprisionado em um diamante, que logo é retirado e trazido à superfície. Não era exatamente o que esperava, mas o surpreende no que se tornara aquilo que um dia vira afundar.
Por mais inflexível que pareça, o artefato pode converter-se maleável em altas temperaturas.
O som de uma abertura metálica e pesada lentamente sendo aberta soa pelo ambiente, e do buraco proveniente de seu peito jorra lava que escoa para o buraco a pouco escavado. A forma bruta de carbono é então mergulhada no fogo líquido que a faz ficar flexível, emanando um fogo púrpura que ilumina o vapor a sua volta. Como barro flamejante é manuseada e trabalhada por mãos calejadas, que não se importam com sua temperatura abrasante. O esforçoso trabalho artesanal se da entre pancadas e compressões, dobras e apertos exaustivos até que aos poucos se tornem formas anatômicas grosseiras. A água que lhe escorre pelo corpo devido ao esforço resfriam os luminescentes objetos formados a partir da peça original, engrossando ainda mais o nevoeiro. Com extremo cansaço e muitas queimaduras o artífice se deita ao lado de sua obra e descansa por incontáveis e imperceptíveis seis dias e seis noites.
Com a ferida da terra já cicatrizada e o tempo limpo, no qual agora se faz possível enxergar as estrelas, levanta-se para observar o arredor. Nada reconhece, mas não sabe se andara muito, ou se sua memória que já não é mais a mesma. É possível enxergar centenas de marcas e feridas, e uma abertura no peito que agora jaz vazia e profundamente escura.
De forma ritualística prossegue encaixando as peças do exoesqueleto moldadas para encaixar em seu corpo cansado. O traje lhe cai como uma luva, se adaptando como uma segunda pele e uma peça sobressalente se faz adequada; uma lâmina obscura sendo embainhada encerra a ritualística. Aos poucos se da conta de que o tempo está fechando, e ao reparar na luminosidade da lua observa não mais possuir uma sombra. Infla os pulmões professando os seguintes versos:
"Visto de volta o bom e velho pessimismo otimista
Onde espero de cada circunstância sempre o pior
Sem temer a má sorte do futuro desconhecido
Sendo assim por vezes surpreendido positivamente
Faço de minha densa sombra minha arma e armadura
Forjada no ardor de minhas dolorosas emoções vividas
Resfriada em meus obscuros prantos e odiosos pesares
Feita à minha imagem e semelhança, meu complemento
Que todo o meu passado, seja glorioso ou vergonhoso
Nenhuma vez seja negado, ou por mim desmerecido
Que as batalhas vindouras não sejam jamais temidas
Oh! Luminosa lua espectral que me observa dos céus
Não possuo mais treva, tão pouco sou cheio de luz
Me faço humanamente cinza, puramente indecifrável"
domingo, 3 de novembro de 2013
Presa
Até que os dois se encontrem próximos
O rapaz se encanta com tamanha beleza da fera
Enquanto o bicho observa-o atentamente
Ele chega a ter total controle em suas mãos
A leoa vê em seu treinador seu confiável dono
- Vinde a mim animal selvagem!
- Sim, mestre!!
O domador se encontra totalmente maravilhado
Fica sem palavras com o quão formosa é a criatura
Sequer se da conta do perigo que é domá-la
Tudo se encontra sob controle enquanto se entendem
Entretanto a felina o analisa a todo momento
Sua memória afiada grava cada pequena falha
- Venha maravilhosa criatura, sabes quem sou eu?
- Não há como esquecer, eu lembro do seu cheiro
Por alguns instantes se deixa levar pela confiança
Se esquece que o feroz ser anseia ser dominado
Sem isso todo o circo rui e o fim é inevitável
A leoa o julga trespassando-o com olhares
Ao tentar disfarçar não percebe que ela se guia pelo olfato
Ela percebe seus desejos mais profundos
Mesmo que ele tenha total controle sobre eles
O artista circense é sincero e a trata como igual
E isso não corresponde às necessidades da fera
Que parte em sua direção para atacá-lo
- Você é fraco, eu vejo seus defeitos!
- Por que fazes isto? Não sempre nos demos tão bem?
Uma patada da criatura lhe tira uma porção de sangue
Ele reage com a cadeira em mãos e estala o chicote
Não à faz mal algum, ainda assim a provoca ainda mais
Sua fúria intensa alimentada pela insegurança não cessa
Algo entre a posse e o medo a instiga a lutar
O jovem domador recua, saindo e fechando o gradil
- Assim não vai dar certo, olha como estou ferido!
- Você não é homem o bastante! Fuja, covarde!
Em um último ato de coragem, ele entra bruscamente
Ao ver a besta agora surpresa, recuando e confusa
Se aproxima vagarosamente abrindo os braços
Totalmente exposto e ficando cada vez mais perto
Joga o chicote para o lado e a encara no fundo dos olhos
- Eu estou aqui, não tenho medo!
- Pois deveria!
Em um salto o magnífico ser se posiciona a sua frente
E em uma mordida agressiva arranca-lhe a cabeça

sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Epitáfio
Fim.
Conforme a pá entra em contato com o solo úmido, sinto o impacto percorrer meus braços até meus ombros, duros com a tensão do fardo que carrego. Demorei muito, mas duzentas e oitenta e seis linhas depois eu pude finalmente dizer ao ar tudo que precisava ser dito. Agora minha boca é como o terno de madeira encostado ao lado, sob a chuva pesada que o enxarca. Minhas palavras foram gravadas em um pergaminho feito de meu próprio coro, colocadas em uma garrafa e solta ao oceano profundo, afundando com o peso das emoções expressadas.
Cavar na chuva não é nem um pouco fácil, a terra fica úmida e pesada, e a lama me suja até os joelhos, assim como meus antebraços. Mas não posso mais esperar a torrente passar, certas coisas precisam ser feitas, não importando as circunstâncias. Verbos desnecessários encheram o esquife de madeira maciça, sentimentos lacrados que tornam poucos os sete pés habituais. O erro é cavar um buraco que não se consegue sair, deixando o túmulo exposto, e você escondido. Após todo esforço, subir não é fácil, mas é o preço que se paga por cavar uma fenda tão profunda. De lábios selados está no caixão um anjo caído. A costura em seus olhos e boca são para assegurar que não vaze as memórias que com ele foram seladas.
É Samhain e não existe momento melhor para lidar com os mortos. Será a última vez que esse espírito amaldiçoado andará pela terra, voltando para seu confinamento na badalada da meia noite. Após passar as correntes em volta do caixote me certifico de trancar bem os cadeados. Não vale a pena subestimar a força do que ali está guardado, já fizera grande estrago no passado. Por precaução até mesmo suas mãos e pés se encontram atados para que não haja como fugir; está sendo enterrado vivo, é verdade, mas jamais irá morrer. Só precisa se manter aprisionado a muitos metros abaixo da terra, que aos poucos se renovará sobre sua cabeça até que seja esquecido que ali houvera algum abjeto sequer.
Seu dom da imortalidade é sua maldição, e suas asas foram cortadas, muito antes de ser necessário sumir com sua existência, pelas mãos de outro de sua casta. Ao som da tempestade vou descendo a corda até que ele seja coberto pela água que já acumula no fundo. Boa parte do trabalho já foi, sequer posso sentir o suor escorrer no meio dessa tormenta. As gotas caem com força e são geladas; passam limpando a alma e carregando a sujeira acumulada em minha aura enlameada.
Agora só falta jogar terra por cima, e a pá parece pesar uma tonelada neste momento, talvez pelo cansaço de já ter cavado, entretanto uma vez começado o serviço vou até o fim. A cada porção de terra que colide com a tampa feita de magnólia, ecoa fortemente pelas paredes da cova uma vibração que faz minhas pernas tremerem. Mesmo na metade do caminho ainda é possível ouvir os murmúrios da alma penada que resvalam em meus tímpanos como um sussurro bem próximo, até ser silenciado pelas últimas esmurradas da pá contra a terra; que findam o esforço. Enfim uma lápide é posta, com apenas os dizeres "Adeus". Nada mais precisa ser dito e com o término da chuva se percebe um silêncio sepulcral, nem mesmo o vento ousa assoviar.
Ninguém visitará o lugar, e flor alguma será deixada em homenagem. Limpo o suor do rosto, me levanto e sigo para o caminho que já trilhava; rumo ao incerto.
Começo.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Solve et Coagula
A verdadeira alquimia consiste em transformar lágrimas em sorrisos, negativismo em positividade. Tudo está ai, basta rearranjar; dissolver e recompor.
"Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda" - Sigmund Freud
Se você não consegue nem mudar a si mesmo, o que dirá tornar outros metais em ouro. A pedra filosofal é a verdadeira vontade. Você pode encontrá-la para fora ou para dentro, acima como abaixo, os dois caminhos se encontram. Mas tem que buscar! Para fazer dela artifício de sua felicidade, como mantenedora; pois ela não é o final. É o caminho. Um caminho do qual você precisa fazer a manutenção do movimento, se não você se desvia.
"Viver é como andar de bicicleta: É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio" - Albert Einstein
Recuperar o equilíbrio pode ser desconfortável e pode demorar, mas é melhor que seguir se arrastando. Acreditar nas próprias potências, ou blefar com o mundo. Fake it until you make it. Você é o seu personagem, mesmo fazendo boas escolhas nem sempre os dados favorecem. Mas não pode parar de jogar. Não pode se esconder. Não porque isso não é viver, seria arrogância demais definir isso. Vida ou sobrevida, cada qual escolhe o que quer. Mas se não aprender as regras do jogo que acontece fora e por dentro, você continuará no ciclo dos mesmos erros.
A roda do dharma.
"Para amar é preciso ser vulnerável" - CS Lewis
Podem apontar para a lua e você olhar para dedo, você pode até admirar a lua e compreendê-la. Mas para alcançá-la é uma escalada. Muitos perguntam por ajuda ou atalhos, quais os melhores caminhos que os mestres podem ensinar. Por que não jogam uma escada ou uma corda aqueles que já estão lá em cima?
Como poderiam? Eles subiram sem ela.
Existem coisas que ninguém pode fazer por você. Escolhas. As quais todos insistem em achar algozes de seus azares, um culpado que influenciou ou alguém que deveria ter ajudado. Mesmo nas situações mais adversas você sempre tem escolhas! Mesmo que seja não escolher.
"A dor é inevitável, o sofrimento é opcional" - Carlos Drummond de Andrade
O que arde cura, mas nem tudo que cura arde. Dissolver no pensamento e recompor no sentimento. Após se desfazer e se analisar, pedaço por pedaço vem o trabalho de construir. De nada adianta, no fim, se entender sem ser capaz o suficiente de se reconstruir. Despertar a fênix interior sem medo de se queimar.
"O que você sabe não tem valor; o valor está no que você faz com o que sabe." - Bruce Lee
Ilumin.ação
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Fragmentos D'Alma
Passos lentos ecoam pela adoecida casa, desgastada pelo tempo e já cansada de assim ser. Passos lentos levados por joelhos frágeis e pés calejados de contato com o mundo. Um senhor, beirando os três dígitos, caminha em direção ao seu aposento mais vívido e confortável, a sala de livros. Ele poderia chamar de biblioteca, mas prefere deixá-la mais aconchegante e humilde.
Dedos enrugados cobertos por uma fina seda viva se arrasta pelo nariz, já protuberante pela idade, empurrando a fina haste metálica de um pequeno óculos. Com a firmeza de seus ossos, e o que lhe sobra de força nos músculos, ele posiciona uma antiga cadeira de madeira escura, trabalhada em entalhes curvos, para o centro da sala. Não pega um livro sequer. Apenas senta-se e fica a observar tudo o que já leu; Tudo o que um dia soube e tudo no que um dia acreditou.
Divagação. Com seus membros cada dia mais enferrujados e seus órgãos sensoriais gastos, cada vez menos sensíveis, não lhe sobra muita coisa senão pensar. Em tudo que fez e deixou de fazer; o que poderia ter feito e o que quase aconteceu. De fato nem mesmo as probabilidades lhe atraem mais. Com o cenho comprimido, coçando os delicados fios brancos que lhe decoram a cabeça ele se concentra na admiração do todo.
Hipnotizado pela vista da colorida, mesmo que desbotada, combinação de barras verticais, se deixa levar pelos devaneios mais insanos. Seus olhos azuis vislumbram então uma ideia, como um relampejo em sua frente. Seria um raio na janela?
Sem saber se fora sua surdez ou desatenção que o fizera não perceber o barulho, ele se vira na cadeira e repara na janela aberta. Uma suave brisa de outono sopra agitando as cortinas translúcidas. Não está chovendo. Talvez não tenha sido um raio. Talvez...
O ancião então ajeita sua longa barba branca e deposita seu cotovelo ossudo no braço acolchoado da cadeira, apoiando em seguida sua cabeça preguiçosa. Então se põe a pensar:
"Afinal, o que posso dizer sobre a realidade; depois de ver coisas impossíveis acontecerem, e de ver o lógico ser o mais improvável?"
Ainda mais agora, com suas noções distorcidas pelos ciclos, não saberia diferenciar o irreal do real. Cada um desses livros amontoados, sobrepostos e encostados, são noções tão distintas da totalidade. Dentre os mais sinceros estão os de fantasia e ficção, que deixam transparecer os maiores anseios da alma humana. Desde garoto nunca subestimou o poder das palavras, e agora compreende melhor o que jamais concluíra depois de tantos versos, capítulos e compêndios.
Eis que pela janela entra um gélido sopro. Um Vento instigado pela Curiosidade se aconchega em seu colo. E sem perceber, o sábio senhor é pego por um sussurro:
As palavras possuem alma.
Não apenas isso - pensa ele brevemente - elas são parte da alma humana. Cada significado e sentido é uma fagulha da nossa incompreensão com nós mesmos.
Sábios monges e o voto de silêncio, sábios animais e homens das cavernas.
Não criamos algo que já não existisse em nós mesmos, apenas nos dividimos, nos dilaceramos. E aos poucos fomos nos perdendo, sem saber o todo que nos cabe, e o quanto cada pequeno detalhe que não compreendemos nos faz falta.
Cada palavra, da mais sofisticada até a mais genérica; até mesmo as que discordamos e odiamos, são partes de nós. E assim ele coletara, uma por uma, para então finalmente encontrar de onde vieram.
As palavras possuem vida.
Elas nascem, crescem, se multiplicam, transformam e até mesmo morrem.
Sua consciência experiencia uma tempestade de ligações. Uma Epifania aos poucos o desperta. A trama da existência inteira parece se contorcer. Ele sente seu corpo derreter ao observar cada palavra que um dia já lera fugindo dos livros, cada uma com sua distinta forma física. O Vento assustado então foge pela janela, rumando em busca de algo pelo céu noturno.
Em um galho, próximo ao local está a Curiosidade pasma com tudo que despertara. Seus grandes olhos de felino e suas orelhas de raposa tremem de excitação. Excitação essa cortada por um Vento gélido, que lhe dá calafrios. Um pequeno inseto voa a sua volta sem parar, zumbindo em sua orelha. É a Culpa:
- O que você fez?
- Não sei ainda. Estou louco para ver o resultado.
O Vento irritado percebe como se deixou levar por uma das criaturas menos confiáveis, passando feito um tufão, arrastando as folhas das árvores. Voando para bem longe dali.
- Interessante, não? - Pergunta a pequena criatura de dedos finos, com um sorriso discreto na boca, de quem não consegue conter o entusiasmo.
Mexendo em suas pequeninas chaves que carrega em sua cintura, a criatura foge da bronca e vai em direção a casa - Mal posso imaginar tudo o que pode acontecer a partir de então. - Sua caminhada é interrompida abruptamente por um muro cheio de portas e gavetas. Estática, a Curiosidade decide observar seu obstáculo, e sem exitar tenta uma de suas chaves finas e compridas na fechadura principal. Se surpreende novamente ao ver um manto liquido se projetar do muro formando uma silhueta humana de capuz e trajes de monge. Em sua mão o misterioso ser traz uma ânfora, com uma boca em relevo, a qual sua outra mão silencia.
- O que fizestes criatura tola?
- Segredo? O que fazes aqui? Por que me impedes? Não faço nada além de meu intento primordial.
- Basta! Percebes o que está acontecendo? Ele está alterando toda a trama do mundo, interna e externa. Não posso falar mais que isso. Enquanto não resolveres este problema, terás a Culpa em seu fardo.
Cavando as costas da Curiosidade com o intuito de se esconder e se enterrar para se esquecer, a Culpa encontra o Desespero emergindo e se arrastando. Preocupado e inseguro, ele decide correr atrás de qualquer um que pudesse prover algum tipo de ajuda, deixando a Curiosidade a se coçar.
Após sair das costas da Curiosidade, o Desespero corre perdido gritando por ajuda. Suas pernas tortas cheias de pequenos cortes tremem e seus joelhos ossudos se chocam. Em um dos ombros está a Ansiedade, um pequeno mamífero respirando tão rápido que sua respiração solta um barulho incômodo. A irritante criatura de olhos esbugalhados arrasta suas garras na pele de seu hospedeiro de forma inquietante. Do outro lado vemos a Preocupação que intercala entre cada "e se" uma bicada na cabeça do pobre Desespero.
Caído no chão, o disforme ser olha para frente e enxerga um pé de mármore. Levanta seus olhos e observa uma fria imagem, a lhe fitar de cima para baixo.
- O que está acontecendo? Nada está fazendo sentido.
- Eu, não... Eu não sei. A Curiosidade. Ela fez algo. A existência está em choque. Epifania toma conta dos pensamentos. O velho está se desfazendo. - balbucia com as palavras se atropelando o Desespero.
A Razão então demonstra interesse. Seu senso lógico agora monta o quebra cabeça e ela compreende o monstro, que agora a enxerga melhor: Figura de mármore e rosto neutro, seu cabelo retilineamente escorrido para trás. Em suas mãos porta um escudo e uma lança. Uma coruja lhe sussurra algo no ouvido e ela então afirma categoricamente:
- Tenho a solução! - Com um esfregar de mãos, razão cria uma borboleta azul e então a assopra. A borboleta segue em direção a casa, deixando um rastro luminoso de pequenos pulsos elétricos.
De volta a casa observamos como tudo começa a se desfazer em um redemoinho de estilhaços e farpas. Na antiga e detalhadamente entalhada cadeira, encontramos apenas um líquido escorrendo e se esparramando no chão. Logo a frente está a Epifania, de corpo belo e curvilíneo, mas com patas de bode e grandes chifres curvados para trás. Em sua mão está um cérebro com as vértebras se enroscando em seu braço. Ela saboreia com prazer a vibração que aquele órgão emana.
De súbito a porta é escancarada por outra beldade. De rosto mais severo com olhar concentrado e mãos intimadoras a apontar para entidade demoníaca.
- Chega desta libertinagem! Dê-me este cérebro! Pare com essa loucura!
- Ele que me chamou. Ele me queria aqui. Você nada pode fazer.
Uma rajada de vento agita as vestes da Sanidade. O que não acontece com seu cabelo devidamente preso em um coque. Ela sabe que nesse momento nada pode fazer. Está presa a lógica da sagaz Epifania, mas se vê surpreendida por uma chance de virar o jogo. Uma borboleta adentrando pela janela, zanza através da sala e para no encosto da cadeira.
Os ventos se agitam e com um turbilhão de fagulhas eletroquímicas, o pequeno inseto se transforma em uma jovem donzela de feições delicadas. Em suas costas ainda preserva enormes asas de borboleta.
Apesar de delicada aparência, sua cara demonstra uma firmeza de decisão. Ela encara suas companheiras de sala e chama a Sanidade mais para perto. Com um giz, desenha em volta da cadeira um quadrado equilátero, preenchido por um pentagrama com símbolos e hieroglifos jamais antes vistos.
- Prepare-se.
Epifania se vê com a Dúvida a lhe incomodar. Uma garotinha de cabelos cacheados, que não para de perturbá-la. Estática, não sabe o que fazer. Com a distração nem percebe que o cérebro agora se encontra a flutuar na cadeira com a coluna verticalmente alinhada com a base quase a tocar o acento, e o lobo occipital próximo ao encosto.
A Sanidade começa a se transformar, tornando sua pele brilhosa e reflexiva, se expandindo e se afinando. A Mente, batendo suas asas azuis, então começa a entoar um encantamento. Com seus braços arqueados e dedos bem abertos envolvendo a massa encefálica, ela decide rearranjar o que foi feito e mudar a noção recém concebida.
- Intelecto desfeito, corpo inato, personalidade rompida e ideias esquecidas. Quem vos fala é a Mente! É a alma! E lhes dou uma ordem. Recomponham-se. Se refaçam. O que um dia fora agora não é mais, e o que soubera sequer existiu. Invoco e rogo que me ajude. Ilusão!
O que se vê é algo próximo ao caos. Uma grande mistura de cores, cheiros, tatos, sons e sabores explodem, quase perdendo o controle. Tentáculos surgem e aos poucos vão se agarrando a cadeira, até que a Mente entoe:
- Para definir o mundo, lapidar as possibilidades, reescrever a verdade. Com a temperança de um deus, reconstruo aqui a maior das ilusões: A Realidade!
A janela bate gelando o sangue do ancião com o susto. Ele havia caído no sono. Já estava tarde e esfriava cada vez mais. Decidiu que era melhor fechar a janela e ir para o quarto, estava frio e não queria pegar um resfriado. Afinal de contas, apesar do cansaço de uma vida longa, ele queria, mais que tudo, viver. Sem saber de onde vinha esse ânimo todo, ele viu um último sopro sair pela fresta da janela ao fechar. Um vento se projetou acariciando seu rosto, como um suave beijo de boa noite. Era hora de deixar os livros de lado - pensou ele.
- Irei aproveitar a manhã seguinte. Quem sabe viajar. Já faz tanto tempo...
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Fiddler's Green
Em suas viagens por vezes ela se põe a pensar.
Sobre quão longe pode ela estar de seu querido amado.
Através do horizonte é possível apenas ver uma tênue linha que liga o mar e o céu. E como um pequeno borrão de tinta, ao longe é possível ver seu veleiro.
Nele vela seu maior segredo, a lembrança de um local tenro e irreal. O qual ela sempre pode visitar, mesmo parecendo tão etéreo e volátil.
Como um novelo ela se desenrola deitando sob o céu pálido, tão claro que lhe incomoda os olhos. Solta a deriva reflete se as coisas não são mais as mesmas, ou se tudo se mantém tão intenso apesar da aparente calmaria.
Com a noite chegando ela acende uma vela, e se deixa hipnotizar pela chama débil e tremula. Seus olhos vidrados revelam a chama interna, e mesmo com o vento aquela tímida centelha luminosa não se apaga.
Logo o fogo se revela uma borboleta ardente a fugir de seu suporte e com o olhar ela acompanha sem pensar em nada. Se deixando levar pela ilusão fantástica segue a borboleta com o olhar, sem se dar conta que já não está mais presa ao seu suporte, assim como ela.
Flutuando atrás daquela faísca dançante ela vê cair o véu da realidade, viajando para além de apenas memórias. Ela chega em um lugar, deslocado no infinito dentro de si mesma. Um lugar do qual ela nunca irá esquecer o caminho. Com a forma de um corvo, a viajante pousa sobre uma árvore dentro desse paraíso surreal. A paisagem é de um parque aconchegante, com luzes douradas e uma neblina sutil. Não está frio nem quente demais, e todas as árvores se encontram em tons vivos pontuadas por flores, que agora já forram o chão.
Se transformando em uma coruja, voando pelo parque, através de seus olhos de pássaro ela vê o eco de um movimento passado. Um vulto estava na ponte observando as pedras, outro subindo as árvores e outros nos brinquedos dos parques. São como passados acontecendo simultaneamente.
A jovem volta a sua forma normal ao avistar bem a sua frente, um garoto com a mão no peito de um sorriso suave. Balançando suavemente ele a convida a se aproximar, fazendo com que ela alivie suas dúvidas.
"Eu estou sempre aqui"
Sentando-se no balanço do lado ela se sente segura novamente, recostando-se sobre o ombro do rapaz. Os dois conversam por horas, dias, séculos. Ela desabafa seus anseios, sobre ter vontade de correr o mundo, mas ter medo de tropeçar, de cair no vazio do esquecimento. Ele se levanta, estende a mão e diz:
"Corre comigo"
segunda-feira, 18 de junho de 2012
A sombra da lua
Em uma noite fria de ventos cortantes, os ventos assoviam ao passar carregando um vulto. A Lua se esconde timidamente por entre as sombras formando um fino "c" brilhante no céu profundo como um abismo para o infinito. Uma espessa neblina inebriante traz o cheiro silvestre despertando desejos escondidos.
No alto de um morro entre a selva de pedra e um pequeno bosque se encontra em repouso a presa do espectro, deitada sob um fino lençol de seda recebe a luz da lua pela fresta da janela aberta. A névoa passa suavemente pelo batente escorregando para dentro e se espalhando pelo cômodo. Junto, acompanhando o fluxo, vem a sombra de uma tentação, um íncubo vagante.
Ele fica por um tempo a observar a vítima, ouvir sua respiração, sentir a vida pulsando. O tempo passa e ele sequer percebe o quão hipnotizado ficou por sua beleza. A donzela de aparência delicada exala juventude em sua face angelical, de pele pálida como marfim e cabelos castanhos escuros como mogno. Feito uma boneca de porcelana,seu corpo está delicadamente disposto como se colocado com muito cuidado, coberto deixando-lhe a mostra apenas os ombros desnudos e o macio pescoço agradavelmente torcido para que a cabeça repouse sobre o travesseiro macio.
O estranho visitante se põe a flutuar sobre a tenra jovem e com um melodioso sussurro em seu ouvido invade sua mente, e adentra em seus sonhos.
O provocante íncubo então tenta, como nanquim em água, tirar toda a pureza da jovem, contaminá-la com seus venenosos impulsos. Mergulhando para as profundezas mentais ele a encontra e se prepara para começar possessão, mas se depara com algo que não esperava.
O semblante a jovem delicada muda quando ela abre os olhos e o encara, com um sorriso sinuoso nos lábios, se levanta e se aproxima do que até então era seu predador. O demônio surpreso congela e apenas observa, a cada passo a presença da jovem se tornar mais sombria e sensual. A turva visão onírica começa a tomar tons quentes e a névoa se torna leve e quente formando pilares de vapor. Os dois ficam a se encarar numa distância de um palmo entre os lábios, e ele compreende que está de frente para um igual, se aproxima e beija a súcubo que o seduz e uma forte sensação de calor queima por dentro das duas almas.
E com um susto um jovem rapaz acorda de seu sono profundo, olha para a lua crescente como uma cicatriz no céu, e se pergunta se a jovem do sonho era real e se ele a veria novamente...
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Inteligência Biológica do Fluxo da Vida
Nós não conseguimos nos ver parte da natureza, do planeta, de algo maior, mas esquecemos que somos seres pluricelulares. Somos células. Somos tão grande quanto o sistema que fazemos parte e simultaneamente tão pequenos quanto as partículas que nos compõem! A maior prova de que esse sistema existe. Nós somos parte de uma "inteligência" maior. Não falo de hiper realidade, deuses ou magia.
Nossa própria inteligência é biológica, evolutiva, toda mudança em nível de sociedade e intelecto dos indivíduos é evolução, nossos limites são delineados por nossas mutações, nossos talentos também.
Talvez as mutações aleatórias filtradas pela seleção natural não sejam tão aleatórias, talvez elas possuam um final, um conceito chave. Talvez nós o carreguemos no DNA como utopia, espelho do que seremos, queremos ser. Caberia ai Deus?
Ou seria apenas, e não por isso menos fascinante, a aleatoriedade, coincidências, uma grande experiência sem paradigmas, sem metas, então não caberia dizer os erros dela até que se revele o que sobrou, o que segue a frente. O fluxo das mudanças históricas é representativa de nossa evolução intelecto/biológica ainda acontecendo, de confronto com diferentes mutações, adaptações a diferentes ambientes, diferentes necessidades. E o nosso desejo, o que somos como indivíduos? Nossas crenças e visões de mundo?
Ainda acho que é pura combinação biológica de estímulos reativos ao mundo a nossa volta, fluxo de hormônios conectados por pequenos filamentos que processam tudo. Somos, maquinas, somos animais, somos seres reativos, somos o que cabe na vontade do tempo, da vida, do mundo, do universo.
O mais sensacional é ainda assim sermos capazes de "questionar" todas nossas amarras, pensar essa evolução, enxergar os trilhos, mesmo que seja apenas os que ficaram para trás, sermos capazes de idealizar os próximos passos, dar sugestões para a receita da próxima safra, de qual caminho seguir, mas não somos nós que escolhemos, bem sabemos, não ainda, talvez. Quem sabe um dia viremos maquinistas, mas isso chega a ser inimaginável, o que seria ter controle disso, criador ou manipulador desse poder extremo que é a vida, em níveis muito acima do que pensamos controlar hoje em dia, coisas que não cabem ainda a nossas percepções.
Ou somos nós criadores inconscientes, de universos a todo momento, por que aliamos poder a criação? Talvez ela também possa surgir de formas simplórias, de situações fortuitas, universos paralelos de pura imaginação. Cada um é um cientista, um artista, um criador de probabilidades, um gerador de resultados para essa grande pesquisa.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Um simples carvão
Está chovendo e quase não sinto as gotas por conta da profundeza do buraco. Olho para cima e me pergunto "quando foi que comecei a cavar?". Creio que tenha sido quando fiquei cansado de cuidar do meu jardim, quando comecei a pensar que debaixo da terra podia encontrar jóias raras.
Entretanto agora sequer tenho forças para continuar cavando.
A água escorre pelas laterais do fosso, arrastando terra junto com ela. Me encontro sentado, pensando na sorte de pedras preciosas que encontrei no caminho, apesar de nenhuma brilhar para mim; ou não tenha reparado devido a pouca luz.
Aqui nesta fundura a pressão é grande, são milhares de metros abaixo do nível do mar, minhas unhas estão todas em carne viva de tanto cavar. Sou gradativamente soterrado e empurrado cada vez mais para baixo, e a pressão continua a aumentar. É tanta que me sinto comprimir, solidificar e endurecer, tanto quanto diamante.
Mas quem iria cavar para me encontrar?
sábado, 5 de novembro de 2011
De saco cheio
Apenas dois seres deitados admirando o céu e tentando imaginar a noção do quão longe estão as estrelas, e se provavelmente aquelas estrelas já estão mortas. É possível ver a curvatura da atmosfera e o tempo parece não existir, mas a lua está sempre lá.
Então, tanto faz.
.
sábado, 10 de setembro de 2011
Fronteiras
![]() |
| Marcel Aymé - Le Passe Muraille |
Engraçado como as vezes viajamos o mundo à espera de que,
quando votarmos, estará tudo diferente
Ou de que para onde formos nada será do mesmo jeito
Temos até a impressão de estarmos milhares de quilômetros distantes do que éramos
As vezes forçamos mudanças para ver se o mundo acompanha
Pior é quando o mundo muda e não acompanhamos
De qualquer forma nunca parecemos em sintonia, parte do todo
Corremos uma maratona para alcançar o ideal de mundo que criamos
Que supostamente voa e se transforma o tempo todo
Mas ele é sempre o mesmo, por mais que mudem alguns detalhes
Nossos olhos de barro moldados pelo passado ainda são os mesmo para ver o mundo
Tudo que vemos tem mais de nós do que o que realmente é
Talvez nos transformamos quando desistimos de mudar
Quando paramos de reparar se está ocorrendo ou não
O mundo pode mudar de forma quantas vezes for
Mas continuará sempre o mesmo enquanto permanecermos
Nossos desafios sempre parecerão os mesmos
Uma meta inalcançável
Porque esses desafios inexistiam
Nunca existiram paredes
Você atravessa o muro
Olha para trás
E não há muro
Nunca houve
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sábado, 14 de maio de 2011
Um dia. Três outonos.
Ponho a blusa, desço as escadas e paro frente ao portão. Hesito.
Toda vez é uma longa viagem, pois o tempo para ao caminhar e se abre aos poderes do pensar.
Abro o portão, visto o gorro, as mãos se encontram no bolso canguru.
Está garoando e o frio corta meu ânimo. É hora de andar.
Olhando para cada visão obtusa dessa cidade apagada pela neblina me pergunto o que é este vazio que sinto.
O solstício de inverno parece ter chegado mais cedo, ainda é maio e por volta das cinco horas já está escuro.
Nada melhor do que a escuridão para nos trazer a luz mental.
Esse vazio não faz sentido.
Como posso sentir um vazio se aquela pessoa pouco fez para preenche-lo, e quando foi levou apenas as migalhas que deixara?
Talvez seja o medo que esses três anos me fizera esquecer, o medo de ficar sozinho.
Meus problemas não são o escuro, monstros, espíritos ou demônios. Sou eu mesmo.
A fina camada que foi tirada, como pó em fotos antigas, mesmo que pouco preenchida escondia um sentimento.
Ter ficado só esses meses, me fez lembrar das décadas de solidão.
Evito pisar na parte mais suja da calçada, como se a sola do meu tênis não pudesse causar morte por intoxicação, e quase trombo em uma árvore por tanto olhar pro chão.
A quem quero enganar. As vezes penso que fui usado, mas não fiz o mesmo eu também?
Você foi minha ilusão de que posso ser tudo isso que dizia. Te usei como uma droga.
Me viciei em você. Cada gota. Pensei que não conseguiria aguentar sem você toda a pressão.
Não consegui, mas não quer dizer que não aprendi com a abstinência. Não vou ficar como as folhas que ainda verdes estão caídas no chão, voando ao meu caminhar.
E aquela doce casa de joão de barro que agora jaz abandonada também não sou eu.
A ladeira é longa e íngreme e talvez assim tenha que ser, porque do topo poderei ver o caminho que percorri.
Não me arrependo de nada, nós dois nos usamos, e perto do fim eu aprendi realmente a te amar, mesmo que não tenha tido tempo de demonstrar.
Estou voltando para casa. O lugar que estava cedendo para outros que não queriam ficar.
De frente para mim, vejo como tantas garoas a fizeram ficar.
Vou começar a restaurar a fachada, quem sabe um dia não te convido de novo para entrar.
sábado, 23 de abril de 2011
Ser errante da lua
Se desenvolveu sob o brilho da lua e virou um cristal vagante, tentando descobrir o mundo.
Um tanto quanto cristalino e transparente, puro tinha um brilho e encanto.
Outros pequenos seres moldados de barro já não compreendiam aquela pequena forma que olhava o mundo com tanta sede, e quase não falava. Sempre observador.
Desde que era um homúnculo formado já sentia aos poucos sua forma refletir o entorno. Seu reflexo brilhar a partir de suas novas admirações e assim foi sendo moldado através do brilho dos outros. Aos poucos adquiriu uma forma multi-facetada totalmente diferente, fora dos padrões, mas nunca alcançava suas fontes de inspiração.
Vendo o quanto tais tentativas o trincavam foi se fortificando, criando alguns espinhos e camadas sobressalentes até que não vissem mais seu brilho. Sob o fogo de constantes atritos tomou nova forma e enquanto sentia-se maleável pela alta temperatura se focou em ser o perfeito receptáculo das chamas que o hipnotizavam, mas se esqueceu de sua própria reluzência. O fato só piorou... e aos poucos ele começou a rachar, e ruir.
Então de súbito passou a arrancar camada por camada de seu ser, a crosta escura que criara.
Em uma noite que não teve luar estirado sob uma poça ele reparara seu brilho voltando aos poucos ao perceber que alguém o queria ver brilhar. Mas a ironia da situação é que ele não conseguia dar o que tanto esperou de outros e ainda assim refletia fortemente o brilho de admiração por aquele ser brilhante, de formas obtusas e com alguns trincos, mas que não diminuiam sua luz.
Aparentemente os dois passaram por fogos parecidos, mutações semelhantes. Como um espelho ele se via ali, como outro. E então se levantou da poça no chão, e sempre por onde andou quando via seu reflexo lá estava o outro ser inspirador. Assim o pequeno ser retomou suas forças pela busca da brilhante lua no céu negro e cheio de núvens.
E lá estava ela, em sua totalidade, só lhe faltava pegar.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
IRA
Sigo andando, ouvindo murmúrios tolos de seres incoerentes
Insignificantes...
!
Quero gritar, mas não consigo
Sangra a garganta com a bola de espinhos infinita desse cotidiano inútil
Pessoas vazias, vidinhas de merda
Cobertas com seu orgulhoso excremento
Bando de estrumes ignorantes e mesquinhos
Ainda reclamam do cheiro que a cidade reflete
Deviam é morar nos esgotos tropeçando em si mesmos e balbuciando suas idiotices
Escrotos imundos, ridículos miseráveis, resto do que um dia foi a humanidade
...Olho para os lados
?
De repente, um sinal de positivo saindo da janela de uma van
Apenas uma criança, coração puro e inocência, sem qualquer motivo, e um sorriso no rosto
Talvez ainda tenhamos esperança...
!
Quero gritar, mas não consigo
Sangra a garganta com a bola de espinhos infinita desse cotidiano inútil
Pessoas vazias, vidinhas de merda
Cobertas com seu orgulhoso excremento
Bando de estrumes ignorantes e mesquinhos
Ainda reclamam do cheiro que a cidade reflete
Deviam é morar nos esgotos tropeçando em si mesmos e balbuciando suas idiotices
Escrotos imundos, ridículos miseráveis, resto do que um dia foi a humanidade
...Olho para os lados
?
De repente, um sinal de positivo saindo da janela de uma van
Apenas uma criança, coração puro e inocência, sem qualquer motivo, e um sorriso no rosto
Talvez ainda tenhamos esperança...
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Reflexo
Um jovem palhaço acorda de um sonho. Pálido corre se vestir e por a maquiagem. Traveste-se de Arlequim, enfrentando a ordem das coisas; ele tenta mudar. A passos largos anda confiante, pois sabe que tem Colombina a seus pés. Anda até o espelho e ainda se vê Pierrot, mas não perde o entusiasmo, a inocente colombina acredita piamente que ele é um Arlequim. Anda sobre as nuvens mesmo sabendo que é impossível voar.
Em tamanha insensatez, de Colombina ele passa a duvidar: Seria ela realmente Colombina?
Aqueles que usam máscaras em ninguém conseguem confiar. Inquieto e suspeito, todos os dias a pergunta: E hoje tu me amas? - E ela respondia: Claro meu querido!
Desconfiado da resposta rápida ele exclama: Então me prove!
A cada novo encontro a jovem tentava provar de uma maneira diferente, e a cada nova tentativa se tornava mais confusa sobre seu verdadeiro sentimento. A verdade é que Pierrot perguntava-lhe algo que não queria ouvir a resposta, pois carregava em si a certeza de que era impossível alguém amá-lo. Pierrot em seus delírios platônicos não sabia o que era amor. A cada novo dia que perguntava tentava compreender do que se tratava, e a cada exemplo que Colombina dava, Pierrot aprendia sobre o que ignorava.
Colombina aos poucos, de tanto sugada por Pierrot, só via nele frieza e já não se achava mais em seus olhos, se perdera na busca incansável de alguém que não estava lá. Ela amava o vazio, ou talvez apenas uma máscara. O encanto havia acabado. Pierrot surpreso tirara sua falsa imagem de Arlequim, para ser com sua amada mais sincero, ouvindo em resposta: Eu sempre soube.
Sentado pensativo, borrando toda maquiagem, lembrou que sempre fora Arlequim e que na verdade apenas em seu sonho ele fora Pierrot. Percebeu então quão inútil fora toda essa encenação, mas agora já era tarde demais ele se tornara definitivamente o que via no espelho.
.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
.Vá.C.u0. profundo
Eu literalmente estava pesando no que escrever, afinal conheço tantos assuntos interessantes e filosóficos ou apenas curiosos, mas não me vem nada. Tento pensar no que tem acontecido de diferente na minha vida para comentar e, não me vem nada. Leio outro blog para ter alguma inspiração e não me veio nada.
Esse vácuo profundo que suga tudo e não me deixa expelir nada de interessante...
...tudo tão monótono, mais uma chuva, mais algumas palavras... que inútil, minhas palavras até parecem poesia, Ridículo! É engraçado como o nada é capaz de encher tantas linhas não!?
Considerando que tudo é relativo de forma que o nada pode ser tudo e tudo nada...
...nem vale a pena continuar a linha acima, alias linha é o que me falta de raciocínio, algum nexo, algum sentido... sentido... Ahh! que preguiça tenho coisas para fazer e o que penso é: que mesmice, sem nada para fazer!
A "TEXTura: sentado em frente ao computador com cara de sono com a janela aberta ao lado com aquele calor de verão sumindo e vindo uma brisa gélida ao som de pássaros, os quais não tenho idéia o nome. Que sono... se pelo menos Promethea me desse alguma idéia, ou quem sabe Calíope... O jeito é esperar o Sandman pra me jogar areia nos olhos... Boa noi... tarde... (espreguiça)(boceja)(e vai descansar e mente inquietamente vazia)(e se foi(fui))...
sobraram apenas os pontinhos........ ....... ... .
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