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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Revolver



Ergo sum.

Seria uma noite comum, seria uma noite qualquer.

Fui ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes antes de dormir, quando me deparo com o estranho do outro lado da lâmina com uma camada de amálgama de estanho. O desgraçado me olhava com desprezo tendo o cano de uma Walther P22, alongado com um silenciador, apontado para minha cara. Óbvio que olhei para trás e não tinha ninguém, mas não havia como, eu o via a minha frente. Sua postura era completamente outra e esbanjava um sorriso malicioso no rosto.  Sua camisa preta dobrada até os cotovelos passava uma elegância agressiva e seu cabelo arrepiado com pasta definia sua aura orgulhosa.

Perguntei o que ele queria, não obtive resposta.

Eu sabia o que ele queria. Ali, curvado lavando o rosto e me olhando de baixo para cima. Sequer para se levantar e me encarar nos olhos, me confrontar. De braço estendido o encaro nos olhos profundos e frágeis. Pediria para virar homem, se ao menos isso fosse capaz. Apenas esperava algo acontecer enquanto a água lhe escorria do rosto. Passivo. Reativo, como um pequeno animal. Não seria fácil fazê-lo, mas tinha de ser feito. De cabelo ensebados e espinhas estouradas seu rosto agora demonstrava o pavor que escondia, e em segundos já havia perdido o controle. Entre súplicas veio o desespero, quebrando tudo e tentando despedaçar a fina camada de vidro que nos distanciava.

Um baque. Os cacos de vidro caem lentamente. Um tiro. Da visão fragmentada vejo-o deitado do outro lado. Está feito, guardo a arma, estalo os dedos e o pescoço.

Depois arrumo esta bagunça.

  

domingo, 13 de julho de 2014

Cicuta

Desolate Plains Deserted House - Konijntje

Eu costumava conseguir justificar, achar o que culpar. Conseguia dizer porque me sinto dessa forma. Apontar um acontecimento ou circunstância que me levasse a esse sentimento.

Não consigo mais fingir que existe um porquê, alguém a quem culpar ou algo que possa sanar.
É complicado achar algo que te motive a lutar, quando não consegue mais compreender nada do mundo. Como se tivesse sido criado em uma realidade alternativa, onde nada se aplica. Simplesmente parece que cada pequeno traço de entendimento de mundo é uma grande confusão, um mal entendido.
Passar anos cultivando uma planta para descobrir que era urtiga. Resta apenas o inesgotável desconforto, aquela coceira na alma que você mesmo criou. Não basta apenas o tempo perdido, simplesmente se perde toda perspectiva de recuperá-lo. Não há caminho evidente, nem direção a tomar. É a total falta de sentido. Pra frente. Virou inércia, apenas vai, porque vai.

Costumava cobrar uma justiça divina, um acerto de contas com o karma, a dívida dos hipócritas. O único culpado é quem acredita nessa selva de ideias. Desejamos chorar, cobrar para que seja do jeito que acreditamos, pois já estamos com toda a estrutura montada nesse fundamento movediço. Não há resgate para um ser perdido na floresta da existência. Nada disso é legítimo, nenhuma lágrima é válida, nenhuma compreensão é merecida.

No fim, todos morremos sós.
 

sábado, 5 de novembro de 2011

De saco cheio



No alto de um morrinho, perto de um barranco, algumas árvores para quebrar o vento, poucas nuvens para que saibamos que ainda existem, baixa luminosidade proveniente da cidade e lá no alto a abóbada celeste.
Apenas dois seres deitados admirando o céu e tentando imaginar a noção do quão longe estão as estrelas, e se provavelmente aquelas estrelas já estão mortas. É possível ver a curvatura da atmosfera e o tempo parece não existir, mas a lua está sempre lá.

Então, tanto faz.

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sábado, 14 de maio de 2011

Um dia. Três outonos.


 
Ponho a blusa, desço as escadas e paro frente ao portão. Hesito.
Toda vez é uma longa viagem, pois o tempo para ao caminhar e se abre aos poderes do pensar.
Abro o portão, visto o gorro, as mãos se encontram no bolso canguru.
Está garoando e o frio corta meu ânimo. É hora de andar.
Olhando para cada visão obtusa dessa cidade apagada pela neblina me pergunto o que é este vazio que sinto.

O solstício de inverno parece ter chegado mais cedo, ainda é maio e por volta das cinco horas já está escuro.
Nada melhor do que a escuridão para nos trazer a luz mental.
Esse vazio não faz sentido.
Como posso sentir um vazio se aquela pessoa pouco fez para preenche-lo, e quando foi levou apenas as migalhas que deixara?
Talvez seja o medo que esses três anos me fizera esquecer, o medo de ficar sozinho.
Meus problemas não são o escuro, monstros, espíritos ou demônios. Sou eu mesmo.
A fina camada que foi tirada, como pó em fotos antigas, mesmo que pouco preenchida escondia um sentimento.

Ter ficado só esses meses, me fez lembrar das décadas de solidão.
Evito pisar na parte mais suja da calçada, como se a sola do meu tênis não pudesse causar morte por intoxicação, e quase trombo em uma árvore por tanto olhar pro chão.
A quem quero enganar. As vezes penso que fui usado, mas não fiz o mesmo eu também?
Você foi minha ilusão de que posso ser tudo isso que dizia. Te usei como uma droga.
Me viciei em você. Cada gota. Pensei que não conseguiria aguentar sem você toda a pressão.
Não consegui, mas não quer dizer que não aprendi com a abstinência. Não vou ficar como as folhas que ainda verdes estão caídas no chão, voando ao meu caminhar.
E aquela doce casa de joão de barro que agora jaz abandonada também não sou eu.

A ladeira é longa e íngreme e talvez assim tenha que ser, porque do topo poderei ver o caminho que percorri.
Não me arrependo de nada, nós dois nos usamos, e perto do fim eu aprendi realmente a te amar, mesmo que não tenha tido tempo de demonstrar.
Estou voltando para casa. O lugar que estava cedendo para outros que não queriam ficar.
De frente para mim, vejo como tantas garoas a fizeram ficar.
Vou começar a restaurar a fachada, quem sabe um dia não te convido de novo para entrar.
         

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

.Vá.C.u0. profundo


Eu literalmente estava pesando no que escrever, afinal conheço tantos assuntos interessantes e filosóficos ou apenas curiosos, mas não me vem nada. Tento pensar no que tem acontecido de diferente na minha vida para comentar e, não me vem nada. Leio outro blog para ter alguma inspiração e não me veio nada.

Esse vácuo profundo que suga tudo e não me deixa expelir nada de interessante...
...tudo tão monótono, mais uma chuva, mais algumas palavras... que inútil, minhas palavras até parecem poesia, Ridículo! É engraçado como o nada é capaz de encher tantas linhas não!?
Considerando que tudo é relativo de forma que o nada pode ser tudo e tudo nada...
...nem vale a pena continuar a linha acima, alias linha é o que me falta de raciocínio, algum nexo, algum sentido... sentido... Ahh! que preguiça tenho coisas para fazer e o que penso é: que mesmice, sem nada para fazer!

A "TEXTura: sentado em frente ao computador com cara de sono com a janela aberta ao lado com aquele calor de verão sumindo e vindo uma brisa gélida ao som de pássaros, os quais não tenho idéia o nome. Que sono... se pelo menos Promethea me desse alguma idéia, ou quem sabe Calíope... O jeito é esperar o Sandman pra me jogar areia nos olhos... Boa noi... tarde... (espreguiça)(boceja)(e vai descansar e mente inquietamente vazia)(e se foi(fui))...


sobraram apenas os pontinhos........ ....... ... .