segunda-feira, 21 de julho de 2014

Revolver



Ergo sum.

Seria uma noite comum, seria uma noite qualquer.

Fui ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes antes de dormir, quando me deparo com o estranho do outro lado da lâmina com uma camada de amálgama de estanho. O desgraçado me olhava com desprezo tendo o cano de uma Walther P22, alongado com um silenciador, apontado para minha cara. Óbvio que olhei para trás e não tinha ninguém, mas não havia como, eu o via a minha frente. Sua postura era completamente outra e esbanjava um sorriso malicioso no rosto.  Sua camisa preta dobrada até os cotovelos passava uma elegância agressiva e seu cabelo arrepiado com pasta definia sua aura orgulhosa.

Perguntei o que ele queria, não obtive resposta.

Eu sabia o que ele queria. Ali, curvado lavando o rosto e me olhando de baixo para cima. Sequer para se levantar e me encarar nos olhos, me confrontar. De braço estendido o encaro nos olhos profundos e frágeis. Pediria para virar homem, se ao menos isso fosse capaz. Apenas esperava algo acontecer enquanto a água lhe escorria do rosto. Passivo. Reativo, como um pequeno animal. Não seria fácil fazê-lo, mas tinha de ser feito. De cabelo ensebados e espinhas estouradas seu rosto agora demonstrava o pavor que escondia, e em segundos já havia perdido o controle. Entre súplicas veio o desespero, quebrando tudo e tentando despedaçar a fina camada de vidro que nos distanciava.

Um baque. Os cacos de vidro caem lentamente. Um tiro. Da visão fragmentada vejo-o deitado do outro lado. Está feito, guardo a arma, estalo os dedos e o pescoço.

Depois arrumo esta bagunça.

  

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Paradise Lost



here lost with my thoughts
while my coffee is getting cold
I catch myself reflecting
how I was used to
think
how things never go right
at the same time
but remembering about the past
I've lived in this eden

well ...

at least I was feeling like that,
yet there is no perfection ...
Eva was unhappy
and I was the one to blame
then
I rejected all that divinity.
I've fell for my own choice
made a path through the fire
got problems with my black feathers,
always

maybe we just don't fit to the paradise
we make for ourselves
or maybe I just wasn't brave enough
to deal with my own happiness
although
nothing really changes
and that heavenly place is still there
in the same place it were before
inside my delusions
only

"that’s what I get for kicking
religion in the ass"
but I kicked the redhead too
we get what we deserve...
...no
it's all about what we can achieve
the sky was just too much for me
and found no pleasure in the underworld
isn't that where we supose to be?
after all
between heaven and hell
there will always be much more things wrong
than just
Melancholia

  

domingo, 13 de julho de 2014

Expresso



"Se ao menos lessem
tudo que não escrevo
tanto quanto ouço
o que não dizem..."

Cicuta

Desolate Plains Deserted House - Konijntje

Eu costumava conseguir justificar, achar o que culpar. Conseguia dizer porque me sinto dessa forma. Apontar um acontecimento ou circunstância que me levasse a esse sentimento.

Não consigo mais fingir que existe um porquê, alguém a quem culpar ou algo que possa sanar.
É complicado achar algo que te motive a lutar, quando não consegue mais compreender nada do mundo. Como se tivesse sido criado em uma realidade alternativa, onde nada se aplica. Simplesmente parece que cada pequeno traço de entendimento de mundo é uma grande confusão, um mal entendido.
Passar anos cultivando uma planta para descobrir que era urtiga. Resta apenas o inesgotável desconforto, aquela coceira na alma que você mesmo criou. Não basta apenas o tempo perdido, simplesmente se perde toda perspectiva de recuperá-lo. Não há caminho evidente, nem direção a tomar. É a total falta de sentido. Pra frente. Virou inércia, apenas vai, porque vai.

Costumava cobrar uma justiça divina, um acerto de contas com o karma, a dívida dos hipócritas. O único culpado é quem acredita nessa selva de ideias. Desejamos chorar, cobrar para que seja do jeito que acreditamos, pois já estamos com toda a estrutura montada nesse fundamento movediço. Não há resgate para um ser perdido na floresta da existência. Nada disso é legítimo, nenhuma lágrima é válida, nenhuma compreensão é merecida.

No fim, todos morremos sós.
 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pérola Lunar

Enrapture - Audrey Kawasaki


Vaguei por tempos ao mar, perdido a esmo
Após um naufrágio me vi esquecido de mim mesmo
Numa ilha deserta fazendo das sombras abrigo
Até no horizonte avistar um barco amigo

Foram dias cruéis à deriva, sem norte
Enfrentamos muitas ondas e vento forte
Em um descuido, me vi novamente ao mar
A cristalina água iluminada, brilhava ao luar

Fui parar em meio a rochedos sinuosos
Então a observei pentear seus cabelos sedosos
Em meio aos tenebrosos mares do oriente,
Havia encontrado uma sereia sorridente

Sem falar nada olhou no fundo de meus olhos
À volta de tal belo ser, se vêem apenas espólios
Seu sorriso me convida e mergulho novamente
Finalmente ouço seu canto, me deixando dormente

Me hipnotiza devagar com seu doce charme natural
Seus olhos esguios me convidam à profundeza abissal
A sigo como que puxado pela correnteza da morte
Começo a crer que me fora um arroubo de sorte

Seria novamente um jogo de luzes da lua?
Para que me engane e meus sonhos destrua
Já envolto em breu, longe das luzes pálidas
Percebo as águas cada vez mais álgidas

Tola tentativa, desejo o gosto de teus lábios
Meus anseios nunca foram dos mais sábios
Olhando a minha volta, percebo uma centelha tímida
Em meio a escuridão encontro uma beleza reprimida

Subo vagarosamente, para que a pressão não me mate
Encontro a nau, recebendo-me com devido resgate
Os rochedos vão ficando ao longe e os perco de vista
Mas guardo a pérola comigo, para que o desejo resista

  

terça-feira, 1 de julho de 2014

i(a)mor.tais

Giardians of Time - Manfred Kielnhofer

um ode aos que
arbitrariamente persistem
mesmo sem um porquê
racionalizado explicar

tão raros os que
assumem suas apostas
de tão raras respostas
preferem acreditar

insistentes intuitivos
decidem sustentar
apesar da entropia
que afeta o amar

conhecem infinito na
finitude dos momentos
concebem o íntimo na
escolha de se doar

fazem da morte
uma simples distração
um velho relógio
a tiquetaquear

malucos desvairados
enfrentam o medo
da temível queda
que é se entregar

estranhos parentes
de sangue incomum
esquisito reflexo
a nos espelhar

insanos que topam
decididamente aceitam
que se fazem ser
optando por estar

  

domingo, 22 de junho de 2014

Possessão



Ali estás, parada, distraída. Meu olhar te analisa da cabeça aos pés, mas anseia por um contato visual para dissecar tua alma. E a assim acontece, ao encontro dos meus tu sentes como se estiveste nua. De alguma forma sabes que de mim não escapa nada. Agora a presa tem total noção da perseguição, tal como antílope ao encontrar felinos olhos em meio ao mato seco. Entretanto não corres, se mantém no lugar, congelada; ainda pensando sobre como reagir a tamanha sensação de ser observada. Teu corpo já reage te preparando para ser dominada, sequer pensas em fugir. Não é bem do teu instinto. Ao contrário, escolhe o local do abate, e viras o jogo ao deixar escapar um sutil sorriso no canto da boca, vira de costas e segues andando até um beco escuro. Sabendo que, como uma sombra, estou em teu encalço.

Lá nos encontramos, onde sequer a tênue luz da lua ousa tocar, encarando-nos esperando pelo clímax da caça. Dou alguns passos e retomo o comando. Dedos te ordenam que se aproxime, com um movimento suave, seguido de um comando direto apontando o local a minha frente. Então te vejo caminhar, oscilando suaves movimentos com os quadris a cada passo. Teus olhos de piedade não parecem querer liberdade, já buscas entregar-me toda de uma vez. Ao se aproximar tanto de mim, tu percebes o que antes não vias, chifres curvos por entre os cabelos penteados para trás, assim como dentes um tanto mais pontudos que o normal em meu sorriso que sustenta um cigarro aceso. Agora encontra-te a distância de um sopro, sentindo o cheiro da fumaça que exala de minha boca. Jogo fora o cigarro e toco suavemente teus cabelos longos com meus dedos passando próximos a teu suave rosto. Instintivamente fechas os olhos. Levanto teu queixo com o nó de meu dedo e peço para que abras a boca. Me obedeces como se já houvesse sido previamente treinada. Espera por um presente ou uma confirmação de tua invocação. Me trouxeras pois querias algo. Mulher tão pura e de família cristã, mas cheia de pecado que atraem qualquer demônio. Cuspo em sua boca, e empurro suavemente teu queixo para que feche a boca. Você engole.

O pacto está feito, e agora restaste apenas a ti, sozinha entregue de joelhos com as mãos entre as pernas. Delirando perante a imagem da próxima visita, estás condenada ao que querias, porém não se arrepende.
Havia se entregado há muito tempo atrás.

domingo, 15 de junho de 2014

Trilhos

É impossível transmitir
a poesia que percebo
com o meu olhar
Ainda assim insisto
Para outros olhos
me expressar

Nada significam senão
para quem quer ver
Dentre tantas janelas
para admirar,
poderias a minha escolher

Acreditar talvez em minhas
verdades não ditas?
...

Nem és tu
Na verdade sois vós
É voz

Silenciada e discreta
Ternamente não proferida
E vos não entendo
Também não me ouvistes
Olhares se alinham
uma vez mais
Para se perder sem sentido

Alguma coisa aconteceu
Não será sabido
Alma alguma viu

Morreu no momento
em que o trem
partiu

 
Foto do acidente de trem em Nidareid, 1921

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Doce Quimera

The invisible woman (1940)


Sonhei novamente contigo
É... tu... que não existes
Trocando de face a cada encontro
Plantando distorcidas esperanças
Já deveria estar acostumado
Com teu jogo envolvente
Mas sempre crias regras novas

Menina dos olhos, cansados
Sonolento desejo de repouso
Daquilo que não encontra descanso
Nebulosa de expectativas inalcançáveis
Tua doce presença é irreal
Tuas visitas passageiras
Deixando um sabor solitário na boca

Você que veio me visitar
É... tu... que não existes
Não possui face, não possui forma
Com nomes dos quais nunca ouvi
Ao acordar já esqueci
Só me sobra cogitar
Se estava ali, se estavas aqui

Se estivesse pelo menos por aí


    

segunda-feira, 26 de maio de 2014

expertício



teus suaves doces olhos
olarias que sonhos sorvem
sorriem belos para outro
ouro de tolo aos presos
pesos no traço do escorço
curso natural dos teus rios
risos me arrebatando na praia
eu, logo o paria

o padrão da chuva amarela
aquarela colorindo à toa
entoa o som das falas conhecidas
convencidas prosas invertidas
inventadas chances perdidas
pedrada em parede vazia
vacina de febre curada
tu, e tua couraça

os suaves olhos chovem
a cor dos sonhos escorrem
esqueces o som do sorriso
prosa presa do tolo ouriço
traços de linhas perdidas
pedras órfãs do rio trazidas
febre que arrebata com risos
nós, despertise

      

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Palavras de Ninguém

Stuart Brisley


Só são adorados os poetas mortos ou distantes
Aqueles os quais não se identifica a fraqueza em si
Mas se abstrai como reflexo daquele que a lê
Somente tocam os corações poesias órfãs
Ao ponto que o autor pouco importa, seja Clarice ou Pessoa
Só vale se identificar com a fragilidade, não o indivíduo
Pois o direito à vulnerabilidade é só nosso ao compreender
Jamais o do outro ao sofrer, e sobre isso sentar e escrever
Só é dado o direito da sensibilidade aos excluídos desalmados
Aos quais se vê o resultado da mais fina arte
E não a humilhante face do fracasso humano
Van Gogh só vale muito depois que não mais incomoda

No fim, a arte é a parte aturável do insuportável artista
Pois com tamanha afronta, ousa demonstrar o omitido
Aquilo que, de fato, todos tentam negar a si mesmos
Afinal, num mundo de mentirosos sobre seus sentimentos
Os descarados verdadeiros devem ser apedrejados
Não se pode levantar suspeita da vulnerabilidade de todos!
Arriscar destruir a frágil máscara da hipocrisia social
Pecadores aqueles que assumem o que tanto escondemos
Num mundo de falsidades, os sinceros são alvos fáceis

E assim se mantém a suave ilusão
De que não há errados
Senão os que assumiram a culpa

De serem humanos
    

quarta-feira, 12 de março de 2014

A Era do Ruído



Eu sei o que não quero
Não sei onde desencontrar
Eu sei o que não encontro
Não sei o que quero

Não quero sua informação
Feita sob medida para ser demais
Sem nenhum valor agregado
Todos querem se informar
Até não saberem nada

Não quero seu conhecimento
Um sistema que se autoajuda
Soluções fáceis jogadas no irreal
Todos são gurus infames
De sua própria realidade

Não quero a felicidade
Aquela industrializada, enlatada
Com corante artificial
Todos acham que querem
Até provarem do veneno

Eu quero o meu foco
Não quero a sua agenda
Eu quero me organizar
Não sigo seu calendário

Não quero que me entenda
Que possa me definir e me embalar
Separar e classificar
Todos querem fazer parte de algo
Até não saberem o que são

Não quero seu pacote de valores
Na minha prateleira eu faço a seleção
Partido e religião
Todos abraçam o que não sabem
E aceitam o que nunca quiseram

Não quero seguir a unanimidade
A voz de Deus é burra e feroz
Jesus personalizável (vem em três cores diferentes)
Todos se sentem fazendo parte de algo
Por não saberem ser indivíduos

Eu não quero seguir o fácil
Não quero falta de sentido
Eu quero formar o meu próprio
Não sei o que eu quero

Mas eu descubro

  

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Disinganno

Disinganno - Franschesko Kvirolo


O que tu fazes reverbera
  O que dizes repercuti
    Queria eu não ver
      Ou melhor, não querer

Mas sinto, e percebo
  O que fizestes com o que sobrou de mim
    Sujando e queimando os fragmentos restantes
      Espalhando ao vento como se nada fosse

Páginas manchadas de desvalores vãos
  Se confirmara meu maior temor
    Provoquei, vi e vivi; não venci
      O amor não venceu, mas sua validade

(só não pra mim)

Gostaria de apontar as inconsistências
  Como se surtisse algum mero efeito
    Nada de errado aconteceu afinal
      Uma vez mais, um desengano, nada fatal

Me julgue fraco como quiser
  Só não vejo em ti a mesma força
    De encarar os fatos de forma crua
      Ver que nunca fui culpado por ilusão tua

E das minhas me culpo, num ciclo infinto
  Gradativamente eu tento, e aprendo
    As vezes creio que já nem sinto
      Por pouco tempo, um segundo pacífico

(quem dera)

Antes pensasses como algo vão e tolo
  Com leveza os problema tão mínimos
    Antes visses como algo grandioso
      Relevando o que não vale a pena ser sentido

Tudo sempre fora assim, mal encaixado
  O avesso no verso e o vice no mandato
    A cada passo distante, um descompasso
      Uma total distorção do leproso passado

Quem dera eu, não te afetasses nem mais um pouco
  Assim não me afetarias com tuas reações desmedidas
    Dispersemos, aprendo a relevar, continuando a velha luta
      Em algum momento vou ter de me superar

(...assim espero)

Gostaria que tiveste capacidade como a minha
  Não te julgo, nunca foi contra a sua palavra
    Esse sempre foi o problema, elas sempre valerão mais
      Nada jamais sobrepujará teu orgulho

Mas o ego é uma coisa solitária
  Que assim seja, e assim será
    Continuo desatando nós, nós por nós
      Incrível quantas voltas dei em tão pouco tempo

A rede não me segura mais, estou livre
  Como sempre estive, os grilhões desfaço
    Condenado a responsabilidade de tal arbítrio
      Do começo ao fim, no total desenlaço

(desExistência rExistência)

   

domingo, 2 de fevereiro de 2014

tormenta

black wave - kuldar leement


a verdade é que tenho andado doente

tu sabes, aquela dor aguda
dizem que acontece como um raio
você não vê, não ouve e não sente
é tudo tão rápido que apenas se da conta
quando se percebe estirado no chão
enrola a língua e sequer pode falar

não é exatamente esse momento que importa
a eletricidade quando passa com força brutal
deixa marcas e efeitos que só serão sentidos
quando tudo passar

ou melhor
quando não passar

definitivamente me afetou a visão
quando veio o segundo raio
sempre pode cair duas vezes
no mesmo lugar
mas a segunda vez é totalmente diferente

o que ele deixa
ele leva

a não ser as marcas e efeitos
então você fica doente

com a visão prejudicada
te confundi em todo lugar
me iludi tentando te achar
sabe, podemos ser muito criativos
em sonhos de esperança
afim dos efeitos atenuar

pintei a lua em todo lugar
afinal, já era dia, não podia mais te encontrar
minha maior escuridão era solar
pois me tirou teu brilho

garota, estou doente
e como gostaria não estar...
e tu não estás

tu sempre consegues se curar
não te afetou da mesma maneira
tua doença é outra,
talvez eu só tenha sido uma das ilusões
mas passo rápido, como um relâmpago
sem o solo tocar
nem sentes
e o trovão só vem para incomodar

outro efeito é a perda do tato
não é possível lidar com outros da mesma forma
simplesmente falta a sensação do toque
minha mão é pesada
procurando o que já teve
sem sentir o fogo queimar

sei que existe cura
deve haver uma cura

se ao menos eu parar de me envenenar
com pequenas doses de doces sonhos
fico a expectativa de um por do sol
para o céu obscuro revelar
mas sei que assim como tem sido
será uma noite sem luar

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

realidadeCadência

Roberto Ferri


sou eu ou sou a arte?
tenho substância enquanto vivo
ou vivo apenas enquanto
a morte se faz substância?

me faço na construção de meu intento
porém me desfaço na paz e me reinvento
de que vale a poesia dos vales sombrios
perante a dualidade de um sentido pleno?

me faço enquanto faço
queria mesmo é me desfazer
não precisar sentar e sangrar
em frente a máquina de escrever

espero, não; almejo
queria poder dizê-lo
mas a verdade é que
não tenho para quem dizer

tais letras de cores rubras
escorrem sem sentido
por entre as engrenagens
da tão imperfeita máquina

o som de cada tec marca o tempo
gera um vácuo do desperdício
gera uma matéria de aproveitamento
mas ainda se faz,
sem me deixar ser

sou enquanto destruo
tanto quanto quando crio?
a perspectiva do que consegui
soa nada mais que o eco das perdas
sons não proferidos
e mais marcas deixadas

constante se faz a vontade
de dizer aquela maldita palavra
enquanto faço rodeios
por não ter flechas em minha aljava

ritmo inconstante das teclas
me perdendo no compasso
sempre no momento errado
atrasado, pé atrás de pé
a cada passo

um sacrifício sem deuses
votação sem eleito
realidade em prisma
sonho desfeito

faço
finjo
ajo
crio

nada

   

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Insomnia

Edward Poynter - The Nymph's bathing place

Logo tu, 
Tímida caçadora de Ártemis
Com teus banhos proibidos escondendo uma beleza pura
Apesar da ferocidade de um disparo de arco e flecha

Oh ninfa de tão belo e profundo lago
Se banhando na seiva láctea do brilho eterno da lua
Refletido sobre a superfície de tua macia pele de seda
De cabelos e olhos escuros como o cosmos a noite, 
Mas com um brilho vívido amadeirado da floresta
Os mesmos dedos firmes que apontam a seta mortal 
Se movem suaves por entre as ondulações do cabelo molhado
Diana te abençoa sob o reflexo de suas águas

Quando vês estás nadando na própria lua encarnada em tua graça
Se fazendo una com tal beleza estonteante
A graça de teus movimentos cria marés, 
Teu corpo sobre a superfície gera ondas 
Que são ecos de teu toque sutil
Alcançando as areias de oníricas praias
E como move teu corpo com suavidade!
Parece levitar por entre as estrelas encantando com teu brilho celeste
Antes fosse tão próxima quanto se faz parecer

Ao me devorar com tua iluminada presença, ouvem-se apenas uivos
Te toco com muito esforço com o prolongamento de um sentimento
Através da vibração de encantadoras notas
Melodias geradas pela influência de tua gravidade, 
Que vibram as cordas da harpa das emoções
Afinal, o que poderia um sátiro perdido na floresta
Ter com tua presença intocável? 
Distante e ao mesmo tempo tão marcante

Talvez não seja a lua, 
Talvez seja um reflexo, 
Talvez seja ilusão...
Oh céus, tu és a lua!

E em teu nome canto uma canção, 
Te puxo dos céus com um laço de versos
Te faço matéria, de carne, osso e alma novamente

Caminhas então no mundo terreno longe das nuvens
Mas a lua, ora, a lua nunca saiu de ti

 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sweetheart


"Baby, I see poetry in your lines,
I feel colors in your curves,
I hear melody in your soul"
  

sábado, 11 de janeiro de 2014

Você


Todos estão sempre querendo
Mais do que se fazem querer
E nem sabem o que querem
Queria que entendesse
Simplesmente apenas quero
Alguém que me queira
Porém queira quando quero
Veja bem, não digo de momento
Dando importância apenas
A qualquer querer meu
Quando te quero
Só quero que me queira
E isso só me faz querer mais
É uma questão de alinhar os quereres
Quer queria o que isso queira dizer

    

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sardas


Algo se perdeu no cheiro daquele abraço
Nos deixando sem graça naquele embaraço
Um pedaço da realidade, feito de imaginação
Uma porção de sonho vazando do coração

Falar pode criar cenas verdadeiras das mais belas
Algo em tua profunda iris me liberta de minhas celas
Mas creio que o segredo do amor está no tocar
Teu corpo em contato com o meu nos faz harmonizar

Vejo uma miríade de cores invisíveis em tuas pupilas
Então por um breve instante meus temores aniquilas
E cá estamos no silêncio infinito de um breve olhar
Para ao fim do contato minha nobre ilusão desfolhar

Irradia teu sorriso meigo, tão neutro que se faz malévolo
Somos tão insignificantemente diferentes no frívolo
E tão significantemente semelhantes no importante
Ainda assim o que nos aproxima te torna mais distante

Desperto lentamente de mais uma hipnose onírica
Voltando a realidade que nunca fora minimamente lírica
Sonhada por um coração quase sempre confuso
Me faço consciente novamente de meu ser obtuso

Quem sabe um dia não me procure
Então de antigas feridas eu me cure
Enquanto procuro avidamente me encontrar
Me perdendo nos teus mistérios a desvendar
   

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Y



Me encontro sentado, com as costas arqueadas feito um idoso,
Debruçado sobre os joelhos respirando ofegante e desgostoso
Em minhas mãos uma memória e um instrumento de violência.
Manchando os poemas aos meus pés escorre a sua essência

Cartas e mais cartas espalhadas pelo chão, amassadas
Cartas estas seladas, nunca lidas, jamais enviadas

Nem pareço ter a idade que tenho, carrego o peso de cem anos
Já você, leve como uma vespa continua astuta e jovial
Deixando um rastro de destruição e ignorando os danos
Devorando inocentes corações, como um voraz canibal

"Vê se vira homem!"

Ainda lembro de suas últimas palavras amargas e cruéis
Impensadas feito o rubro sangue que sujam estes papéis
Dia após dia tentei compreendê-las, isso eu te juro
Enquanto navegava num barco à deriva sem porto seguro

Não houve rum que me fizera afogar o seu ódio insolente
Não houve aguardente que mantivesse quente meu coração doente

Essa frase abalou minhas estruturas feito explosão de dinamite
Tais palavras me remontam à lembranças em que fui desafiado
Me foi passada a ideia de que homens ultrapassam o limite
Em todas as vezes nunca entendi plenamente o significado

"Você não é homem!"

Muitas vezes foi esperado de mim atitudes negativas
Um macho alfa coleciona histórias de iniciativas
Em brigas e confrontos queriam ver agressividade
Até mesmo fazer o mal, jamais aceitando a passividade

O homem traz o fardo e o privilégio de ser o grande conquistador
Ter menos pudor, é o desbravador, tem de ser dominador

E logo você não esperava menos que toda essa premissa
Meu maior erro foi tratá-la com todo respeito como uma igual
Trazia consigo um forte desejo de ser domada e feita submissa
Apesar de tudo em você era forte esse instinto animal

"Você nunca vai ser homem"

E então o fatídico dia, te encontro em casa sozinha
Não faço cerimonia, entro sem pedir ao menos licença
Você surpresa me insulta e diz que não mais a tinha
Mas a sua cultura me ensinou a não tolerar tamanha ofensa

Queria ciumes e ser usada, deixo ao lado uma câmera e pego a cinta
Você queria isso, não minta, apenas sinta, quase implorou faminta

Você tenta lutar, mas sempre reclamou de eu ser mais forte
Talvez nesse papel de homem eu me encaixe, veja que sorte
Você queria ter fotos sensuais, com o perigo de cair na rede
Não se preocupe com vergonha, trouxe vinho pra saciar sua sede

"Você é um monstro!"

Talvez então finalmente tenha entendido o que é ser homem
Nessa sociedade machista, tem que ser covarde e botar medo
No abate há quem mate a carne que os outros comem
Com a faca em punho, esta noite serei o açougueiro neste enredo

Recito Bukowski enquanto em desespero se encolhe no canto
Me comove seu pranto, com uma foto me espanto, e eu sinto tanto

Jamais aceitaria me tornar isto, que admira e te apavora
Então em um corte profundo pus minhas tripas fora
Me sentindo honrado por não me deixar cegar pela amargura
Você se afasta o máximo que pode, como eu deveria ter deixado, antes desta loucura

"Eu te odeio!"

Isso me tranquiliza, ainda sente algo afinal,
Perdi total controle de tudo que carrego comigo
Fiz das tripas coração, para não te fazer mal
No fim sempre tivemos em comum o inimigo

Só agora reparo nas cartas que joguei ao chão
Não fui são, sem qualquer razão, foi tudo em vão

Em meio a tantos erros e arrependimentos insanos
No fim entre razão e sentimento, somos nada além de humanos
Mesmo sabendo que não fiz escolha alguma certa
Ainda me preocupo...

"...Você deixou a porta aberta"