quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Fragmentos D'Alma



Passos lentos ecoam pela adoecida casa, desgastada pelo tempo e já cansada de assim ser. Passos lentos levados por joelhos frágeis e pés calejados de contato com o mundo. Um senhor, beirando os três dígitos, caminha em direção ao seu aposento mais vívido e confortável, a sala de livros. Ele poderia chamar de biblioteca, mas prefere deixá-la mais aconchegante e humilde.

Dedos enrugados cobertos por uma fina seda viva se arrasta pelo nariz, já protuberante pela idade, empurrando a fina haste metálica de um pequeno óculos. Com a firmeza de seus ossos e o que lhe sobra de força nos músculos ele posiciona uma antiga cadeira de madeira escura trabalhada em entalhes curvos para o centro da sala. Não pega um livro sequer. Apenas senta-se e fica a observar tudo o que já leu; Tudo o que um dia soube e tudo no que um dia acreditou.

Divagação. Com seus membros cada dia mais enferrujados e seus órgãos sensoriais gastos, cada vez menos sensíveis, não lhe sobra muita coisa senão pensar. Em tudo que fez e deixou de fazer; o que poderia ter feito e o que quase aconteceu. De fato nem mesmo as probabilidades lhe atraem mais. Com o cenho comprimido, coçando os delicados fios brancos que lhe decoram a cabeça ele se concentra na admiração do todo.

Hipnotizado pela vista da colorida combinação de barras verticais, se deixa levar pelos devaneios mais insanos. Seus olhos azuis vislumbram então uma ideia, como um relampejo em sua frente. Seria um raio na janela?

Sem saber se fora sua surdez ou desatenção que o fizera não perceber o barulho, ele se vira na cadeira e repara na janela aberta. Uma suave brisa de outono sopra agitando as cortinas translúcidas. Não está chovendo. Talvez não tenha sido um raio. Talvez...

O ancião então ajeita sua longa barba branca e deposita seu cotovelo ossudo no braço acolchoado da cadeira apoiando em seguida sua cabeça preguiçosa. Então se põe a pensar:

"Afinal, o que posso dizer sobre a realidade; depois de ver coisas impossíveis acontecerem e de ver o lógico ser o mais improvável?"

Ainda mais agora, com suas noções distorcidas pelos ciclos, não saberia diferenciar o irreal do real. Cada uma desses livros amontoados, sobrepostos e encostados, são noções tão distintas da totalidade. Dentre os mais sinceros estão os de fantasia e ficção, que deixam transparecer os maiores anseios da alma humana. Desde garoto nunca subestimou o poder das palavras, e agora compreende melhor o que jamais concluíra depois de tantos versos, capítulos e compêndios.

Eis que pela janela entra um gélido sopro. Um Vento instigado pela Curiosidade se aconchega em seu colo. E sem perceber o sábio senhor é pego por um sussurro:

As palavras possuem alma.

Não apenas isso - pensa ele brevemente - elas são parte da alma humana. Cada significado e sentido é uma fagulha da nossa incompreensão com nós mesmos.

Sábios monges e o voto de silêncio, sábios animais e homens das cavernas.

Não criamos algo que já não existisse em nós mesmos, apenas nos dividimos, nos dilaceramos. E aos poucos fomos nos perdendo sem saber o todo que nos cabe e o quanto cada pequeno detalhe que não compreendemos nos faz falta.

Cada palavra, da mais sofisticada até a mais genérica; até mesmo as que discordamos e odiamos, são partes de nós. E assim ele coletara, uma por uma, para então finalmente encontrar de onde vieram.

As palavras possuem vida.

Elas nascem, crescem, se multiplicam, transformam e até mesmo morrem.

Sua consciência experiencia uma tempestade de ligações. Uma Epifania aos poucos o desperta. A trama da existência inteira parece se contorcer. Ele sente seu corpo derreter ao observar cada palavra que um dia já lera fugindo dos livros, cada uma com sua distinta forma física. O Vento assustado então foge pela janela e ruma em busca de algo pelo céu noturno.

Em um galho, próximo ao local está a Curiosidade pasma com tudo que despertou. Seus grandes olhos de felino e suas orelhas de raposa tremem de excitação. Excitação essa cortada por um Vento gélido que lhe dá calafrios. Um pequeno inseto voa a sua volta sem parar zumbindo em sua orelha. É a Culpa:

- O que você fez?
- Não sei ainda. Estou louco para ver o resultado.

O Vento irritado percebe como se deixou levar por uma das criaturas menos confiáveis e passa feito um tufão arrastando as folhas das árvores. Voando para bem longe dali.

- Interessante, não? - Pergunta a pequena criatura de dedos finos e um sorriso discreto na boca, de quem não consegue conter o entusiasmo.

Mexendo em suas pequeninas chaves que carrega em sua cintura, a criatura foge da bronca e vai em direção a casa - Mal posso imaginar tudo o que pode acontecer a partir de então. - Sua caminhada é interrompida abruptamente por um muro cheio de portas e gavetas. Estática, a Curiosidade decide observar seu obstáculo, e sem exitar tenta uma de suas chaves finas e compridas na fechadura principal. Se surpreende novamente ao ver um manto liquido se projetar do muro formando uma silhueta humana de capuz e trajes de monge. Em sua mão o misterioso ser traz uma ânfora com uma boca em relevo, a qual sua outra mão silencia.

- O que fizestes criatura tola?
- Segredo? O que fazes aqui? Por que me impedes? Não faço nada além de meu intento primordial.
- Basta! Percebes o que está acontecendo? Ele está alterando toda a trama do mundo, interna e externa. Não posso falar mais que isso. Enquanto não resolveres este problema, terás a Culpa em seu fardo.

Cavando as costas da Curiosidade com o intuito de se esconder e se enterrar para se esquecer, a Culpa encontra o Desespero emergindo e se arrastando. Preocupado e inseguro, ele decide correr atrás de qualquer um que pudesse prover algum tipo de ajuda, deixando a Curiosidade a se coçar.

Após sair das costas da Curiosidade o Desespero corre perdido gritando por ajuda, suas pernas tortas cheias de pequenos cortes tremem e seus joelhos ossudos se chocam. Em um dos ombros está a Ansiedade, um pequeno mamífero respirando tão rápido que sua respiração solta um barulho incômodo. A irritante criatura de olhos esbugalhados arrasta suas garras na pele de seu hospedeiro de forma inquietante. Do outro lado vemos a Preocupação que intercala entre cada "e se" uma bicada na cabeça do pobre Desespero.
Caído no chão o disforme ser olha para frente e enxerga um pé de mármore. Levanta seus olhos e observa uma fria imagem a lhe fitar de cima para baixo.

- O que está acontecendo? Nada está fazendo sentido.
- Eu, não... Eu não sei. A Curiosidade. Ela fez algo. A existência está em choque. Epifania toma conta dos pensamentos. A velha está se desfazendo. - balbucia com as palavras se atropelando o Desespero.

A Razão então demonstra interesse. Seu senso lógico agora monta o quebra cabeça e ela compreende o monstro, que agora a enxerga melhor: Figura de mármore e rosto neutro, seu cabelo retilineamente escorrido para trás. Em suas mãos porta um escudo e uma lança. Uma coruja lhe sussurra algo no ouvido e ela então afirma categoricamente:

- Tenho a solução!

Com um esfregar de mãos, razão cria uma borboleta azul e então a assopra. A borboleta segue em direção a casa deixando um rastro luminoso de pequenos pulsos elétricos.
De volta a casa observamos como tudo começa a se desfazer em um redemoinho de estilhaços e farpas. Na antiga e detalhadamente entalhada cadeira encontramos apenas um líquido escorrendo e se esparramando no chão. Logo a frente está a Epifania, de corpo belo e curvilíneo, mas com patas de bode e grandes chifres curvados para trás. Em sua mão está um cérebro com as vértebras se enroscando em seu braço. Ela saboreia com prazer a vibração que aquele órgão emana.

De súbito a porta é escancarada por outra beldade. De rosto mais severo com olhar concentrado e mãos intimadoras a apontar para entidade demoníaca.

- Chega desta libertinagem! Dê-me este cérebro! Pare com essa loucura!
- Ele que me chamou. Ele me queria aqui. Você nada pode fazer.

Uma rajada de vento agita as vestes da Sanidade. O que não acontece com seu cabelo devidamente preso em um coque. Ela sabe que nesse momento nada pode fazer. Está presa a lógica da sagaz Epifania, mas se vê surpreendida por uma chance de virar o jogo. Uma borboleta adentrando pela janela, zanza através da sala e para no encosto da cadeira.

Os ventos se agitam e com um turbilhão de fagulhas eletroquímicas o pequeno inseto se transforma em uma jovem donzela de feições delicadas. Em suas costas ainda preserva as asas de borboleta.

Apesar de delicada aparência sua cara demonstra uma firmeza de decisão. Ela encara suas companheiras de sala e chama a Sanidade mais para perto. Com um giz ela desenha em volta da cadeira um quadrado equilátero preenchido por um pentagrama com símbolos e hieroglifos jamais antes vistos.

- Prepare-se.

Epifania se vê com a Dúvida a lhe incomodar. Uma garotinha de cabelos cacheados que não para de perturbá-la, Estática, não sabe o que fazer. Com a distração nem percebe que o cérebro agora se encontra a flutuar na cadeira com a coluna verticalmente alinhada com a base quase a tocar o acento e o lobo occipital próximo ao encosto.

A Sanidade começa a se transformar, tornando sua pele brilhosa e reflexiva, se expandindo e se afinando. A Mente, batendo suas asas azuis, então começa a entoar um encantamento. Com seus braços arqueados e dedos bem abertos envolvendo a massa encefálica ela decide rearranjar o que foi feito e mudar a noção recém concebida.

- Intelecto desfeito, corpo inato, personalidade rompida e ideias esquecidas. Quem vos fala é a Mente! É a alma! E lhes dou uma ordem. Recomponham-se. Se refaçam. O que um dia fora agora não é mais, e o que soubera sequer existiu. Invoco e rogo que me ajude. Ilusão!

O que se vê é algo próximo ao caos. Uma grande mistura de cores, cheiros, tatos, sons e sabores explodem quase perdendo o controle. Tentáculos surgem e aos poucos vão se agarrando a cadeira até que a Mente entoe:

- Para definir o mundo, lapidar as possibilidades, reescrever a verdade. Com a temperança de um deus, construo aqui a maior das ilusões: A Realidade!

A janela bate gelando o sangue do ancião com o susto. Ela tinha caído no sono. Já estava tarde e cada vez mais frio. Decidiu que era melhor fechar a janela e ir para o quarto, estava frio e não queria pegar um resfriado. Afinal de contas apesar do cansaço de uma vida longa ele queria, mais que tudo, viver. Sem saber de onde vinha esse ânimo todo ele viu um último sopro sair pela fresta da janela ao fechar. Um vento se projetou acariciando seu rosto como um suave beijo de boa noite. Era hora de deixar de lado os livros - pensou ele.
- Irei aproveitar a manhã seguinte. Quem sabe viajar. Já faz tanto tempo...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Libertas Quae Sera Tamen



Falam que se você não se amar ninguém te amará. Não é verdade. As pessoas te amarão, você só não verá, não se dará o crédito por merecer aquele amor.
Pelo medo irá duvidar dos sentimentos dos outros, os afastando aos poucos. Quem não se ama não consegue acreditar no amor dos outros, acha sempre que é interesse ou falsidade, prefere crer que está tudo errado, que tudo foi uma grande mentira. Alimenta o ciumes, a inveja e o ódio, se corroendo por dentro, jogando a culpa dos seus problemas em quem tenta te ajudar.
Não existe amor para quem não se ama, infelizmente para os que estão em volta existe, e é desprezado.
Cada um é o capitão de sua alma, dono de seu destino. O único que pode te salvar de suas emoções e defeitos é você mesmo...
   

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Fiddler's Green




Em suas viagens por vezes ela se põe a pensar.
Sobre quão longe pode ela estar de seu querido amado.
Através do horizonte é possível apenas ver uma tênue linha que liga o mar e o céu. E como um pequeno borrão de tinta, ao longe é possível ver seu veleiro.
Nele vela seu maior segredo, a lembrança de um local tenro e irreal. O qual ela sempre pode visitar, mesmo parecendo tão etéreo e volátil.
Como um novelo ela se desenrola deitando sob o céu pálido, tão claro que lhe incomoda os olhos. Solta a deriva reflete se as coisas não são mais as mesmas, ou se tudo se mantém tão intenso apesar da aparente calmaria.

Com a noite chegando ela acende uma vela, e se deixa hipnotizar pela chama débil e tremula. Seus olhos vidrados revelam a chama interna, e mesmo com o vento aquela tímida centelha luminosa não se apaga.
Logo o fogo se revela uma borboleta ardente a fugir de seu suporte e com o olhar ela acompanha sem pensar em nada. Se deixando levar pela ilusão fantástica segue a borboleta com o olhar, sem se dar conta que já não está mais presa ao seu suporte, assim como ela.

Flutuando atrás daquela faísca dançante ela vê cair o véu da realidade, viajando para além de apenas memórias. Ela chega em um lugar, deslocado no infinito dentro de si mesma. Um lugar do qual ela nunca irá esquecer o caminho. Com a forma de um corvo, a viajante pousa sobre uma árvore dentro desse paraíso surreal. A paisagem é de um parque aconchegante, com luzes douradas e uma neblina sutil. Não está frio nem quente demais, e todas as árvores se encontram em tons vivos pontuadas por flores, que agora já forram o chão.
Se transformando em uma coruja, voando pelo parque, através de seus olhos de pássaro ela vê o eco de um movimento passado. Um vulto estava na ponte observando as pedras, outro subindo as árvores e outros nos brinquedos dos parques. São como passados acontecendo simultaneamente.
A jovem volta a sua forma normal ao avistar bem a sua frente, um garoto com a mão no peito de um sorriso suave. Balançando suavemente ele a convida a se aproximar, fazendo com que ela alivie suas dúvidas.

"Eu estou sempre aqui"

Sentando-se no balanço do lado ela se sente segura novamente, recostando-se sobre o ombro do rapaz. Os dois conversam por horas, dias, séculos. Ela desabafa seus anseios, sobre ter vontade de correr o mundo, mas ter medo de tropeçar, de cair no vazio do esquecimento. Ele se levanta, estende a mão e diz:

"Corre comigo"
            

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A sombra da lua



Em uma noite fria de ventos cortantes, os ventos assoviam ao passar carregando um vulto. A Lua se esconde timidamente por entre as sombras formando um fino "c" brilhante no céu profundo como um abismo para o infinito. Uma espessa neblina inebriante traz o cheiro silvestre despertando desejos escondidos.
No alto de um morro entre a selva de pedra e um pequeno bosque se encontra em repouso a presa do espectro, deitada sob um fino lençol de seda recebe a luz da lua pela fresta da janela aberta. A névoa passa suavemente pelo batente escorregando para dentro e se espalhando pelo cômodo. Junto, acompanhando o fluxo, vem a sombra de uma tentação, um íncubo vagante.

Ele fica por um tempo a observar a vítima, ouvir sua respiração, sentir a vida pulsando. O tempo passa e ele sequer percebe o quão hipnotizado ficou por sua beleza. A donzela de aparência delicada exala juventude em sua face angelical, de pele pálida como marfim e cabelos castanhos escuros como mogno. Feito uma boneca de porcelana,seu corpo está delicadamente disposto como se colocado com muito cuidado, coberto deixando-lhe a mostra apenas os ombros desnudos e o macio pescoço agradavelmente torcido para que a cabeça repouse sobre o travesseiro macio.

O estranho visitante se põe a flutuar sobre a tenra jovem e com um melodioso sussurro em seu ouvido invade sua mente, e adentra em seus sonhos.
O provocante íncubo então tenta, como nanquim em água, tirar toda a pureza da jovem, contaminá-la com seus venenosos impulsos. Mergulhando para as profundezas mentais ele a encontra e se prepara para começar possessão, mas se depara com algo que não esperava.

O semblante a jovem delicada muda quando ela abre os olhos e o encara, com um sorriso sinuoso nos lábios, se levanta e se aproxima do que até então era seu predador. O demônio surpreso congela e apenas observa, a cada passo a presença da jovem se tornar mais sombria e sensual. A turva visão onírica começa a tomar tons quentes e a névoa se torna leve e quente formando pilares de vapor. Os dois ficam a se encarar numa distância de um palmo entre os lábios, e ele compreende que está de frente para um igual, se aproxima e beija a súcubo que o seduz e uma forte sensação de calor queima por dentro das duas almas.

E com um susto um jovem rapaz acorda de seu sono profundo, olha para a lua crescente como uma cicatriz no céu, e se pergunta se a jovem do sonho era real e se ele a veria novamente...
      

sexta-feira, 8 de junho de 2012

αλήθεια


"Certo dia em minhas viagens mentais alcancei a grande porta, foi uma visão muito além de aterradora.
A porta da verdade me chocou.
Outra vez me deparei alcançando-a e a reação foi extremamente oposta.
O quão incrivelmente maravilhosa a porta da verdade se prostrava em minha frente.
Por vezes e mais vezes minhas reações alternavam com as informações, com as luzes e sombras, em casos duvidei se a porta era a da verdade realmente, outras vezes duvidei que realmente tivesse a alcançado.
Mas de todas as vezes em que encarei a grande porta o que realmente mudou, eu ou a porta?"

"Você é a porta."
           

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Fendas



Eu sei reconhecer pessoas amargas, ou melhor, amarguradas, esse leve toque cítrico que me desperta curiosidade, me atrai.
Café.
Sempre vi as pessoas como o mais transparente dos cristais, mesmo que me vejam como uma turva imagem onírica sem muito nexo.
Disforme.
Acho que seja o natural, procurar semelhantes. Alguém que conheça das mesmas dores, que entenda de provações semelhantes. Talvez em uma tentativa de me entender, compreender o ser que está refletido nos outros. Pessoas com os olhos que, ao se encontrarem com o meu, fazem até eco de tamanha profundidade.
"E se você encara por muito tempo um abismo, o abismo também encara você."
A batalha dos olhares é um desafio de empatia: até que ponto você pensa me entender?
Não sei, mas não me canso de tentar saber.
As pessoas podem esconder da forma que quiserem, eu vejo as feridas através dos panos. E isso mexe comigo, a mente é um labirinto, porém eu não fico procurando a saída. Eu reparo nas ranhuras nas paredes. Tudo que passa deixa uma marca, um rastro. Muitos nem notam, mas eu tateio no escuro, e tento sentir a profundidade de cada fenda.
Jogo uma tocha no penhasco escuro, e me vejo pegando a mesma tocha lá no fundo.
Talvez seja apenas eu me projetando nos outros até achar a forma correspondente.
Mas nada corresponde ao que se passa em minha mente.
     

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Not even a bang


The black hole of creation
Destruction to generate
Fear that shapes the love
Purifying agony
The great mix from an explosion
Scream in silence
Total consummation for renovation
Putting all elements together
Draining every energy
Absorbing the soul
Feeding the chaos
Reshaping the order
But what is being in a invisible place,
Where even the light can't pass through?
 

domingo, 8 de janeiro de 2012

Farol de Alexandria


Quão vazia é uma mente que se fecha a tudo que pode entrar com medo de mudar...

Novas informações sempre são boas, novas idéias, novos argumentos, novos dados, novos conceitos, novas perguntas
Achar que pode existir um quebra cabeça de uma peça só
Crer que o que se sabe responde a tudo, e para cada lacuna forçar a forma oblíqua
Fazer tudo se ajustar ao que pensa e não o contrário
Limitar o próprio universo e sua compreensão do mesmo
Não querer aproveitar o sabor do mistério, a diversão da pesquisa
De cada lapidada no mármore bruto que é nossa visão de mundo
Cada acrescento na receita alquímica do conhecimento
Sem medo de dosar o negativo
Ouvir as críticas e colocar a prova a firmeza do muro construído
Do templo erigido a partir das idéias
Não ter medo de testar seu argumento contra os que vivem sobre uma fortaleza de certezas
Descobrir suas falhas de raciocínio
Trocar cada bloco falho por um novo mais sólido
Formar uma torre que te permita ver mais além
Ver mais além no espaço e no tempo
O que está além
O que pode vir
O que ficou para trás
Ligar os pontos
Tecer a trama
Mas não deixar nenhum nó que não posso ser desfeito
Para se refazer se for errado
Sempre aprimorar as ligações
Queimar e recriar caminhos para os neurônios
Adicionar filtros e mais filtros, lentes e mais lentes
Ver não só além, mas também mais profundamente
Mais perto
Com mais precisão

Ainda assim todos preferem alucinógenos, repostas fáceis e confusas para não ter que entendê-las e assim manter-se seguro em seu frágil abrigo, porém grande, monumental, com todos segurando suas paredes para não cair. Uma estrutura de massa humana, com medo de soltar e o teto cair-lhe sobre a cabeça. E esse abrigo não possui janelas, não podem visualizar a incerteza, a construção e renovação das mentes ao redor, com sólidas pontes, e grandes possibilidades.

Basta soltar, e moldar por sí próprio...
   

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Inteligência Biológica do Fluxo da Vida


Nós não conseguimos nos ver parte da natureza, do planeta, de algo maior, mas esquecemos que somos seres pluricelulares. Somos células. Somos tão grande quanto o sistema que fazemos parte e simultaneamente tão pequenos quanto as partículas que nos compõem! A maior prova de que esse sistema existe. Nós somos parte de uma "inteligência" maior. Não falo de hiper realidade, deuses ou magia.
Nossa própria inteligência é biológica, evolutiva, toda mudança em nível de sociedade e intelecto dos indivíduos é evolução, nossos limites são delineados por nossas mutações, nossos talentos também.
Talvez as mutações aleatórias filtradas pela seleção natural não sejam tão aleatórias, talvez elas possuam um final, um conceito chave. Talvez nós o carreguemos no DNA como utopia, espelho do que seremos, queremos ser. Caberia ai Deus?

Ou seria apenas, e não por isso menos fascinante, a aleatoriedade, coincidências, uma grande experiência sem paradigmas, sem metas, então não caberia dizer os erros dela até que se revele o que sobrou, o que segue a frente. O fluxo das mudanças históricas é representativa de nossa evolução intelecto/biológica ainda acontecendo, de confronto com diferentes mutações, adaptações a diferentes ambientes, diferentes necessidades. E o nosso desejo, o que somos como indivíduos? Nossas crenças e visões de mundo?
Ainda acho que é pura combinação biológica de estímulos reativos ao mundo a nossa volta, fluxo de hormônios conectados por pequenos filamentos que processam tudo. Somos, maquinas, somos animais, somos seres reativos, somos o que cabe na vontade do tempo, da vida, do mundo, do universo.

O mais sensacional é ainda assim sermos capazes de "questionar" todas nossas amarras, pensar essa evolução, enxergar os trilhos, mesmo que seja apenas os que ficaram para trás, sermos capazes de idealizar os próximos passos, dar sugestões para a receita da próxima safra, de qual caminho seguir, mas não somos nós que escolhemos, bem sabemos, não ainda, talvez. Quem sabe um dia viremos maquinistas, mas isso chega a ser inimaginável, o que seria ter controle disso, criador ou manipulador desse poder extremo que é a vida, em níveis muito acima do que pensamos controlar hoje em dia, coisas que não cabem ainda a nossas percepções.

Ou somos nós criadores inconscientes, de universos a todo momento, por que aliamos poder a criação? Talvez ela também possa surgir de formas simplórias, de situações fortuitas, universos paralelos de pura imaginação. Cada um é um cientista, um artista, um criador de probabilidades, um gerador de resultados para essa grande pesquisa.
   

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sou um simples carvão


Está chovendo e quase não sinto as gotas por causa da profundeza do buraco. Olho para cima e me pergunto quando foi que comecei a cavar?
Acho que foi quando fiquei cansado de cuidar do meu jardim, quando comecei a pensar que debaixo da terra podia encontrar um diamante.

Mas agora nem forças para continuar cavando eu tenho.
A água escorre pelas laterais do foço arrastando terra junto com ela. Estou aqui sentado, pensando nas pedras preciosas que encontrei no caminho e nenhuma brilhou para mim, ou eu não pude ver devido a pouca luz.

A pressão aqui em baixo é grande, são milhares metros abaixo do nível do mar, minhas unhas estão todas em carne viva de tanto cavar. Estou sendo soterrado e empurrado mais para baixo, e a pressão aumenta.
É tanta que me sinto endurecer, tanto quanto diamante.

Mas quem vai cavar para me achar?
   

sábado, 5 de novembro de 2011

De saco cheio


No alto de um morrinho, perto de um barranco, algumas árvores para quebrar o vento, poucas nuvens para que saibamos que ainda existem, baixa luminosidade proveniente da cidade e lá no alto a abóbada celeste.
Apenas dois seres deitados adimirando o céu e tentando imaginar a noção do quão longe estão as estrelas e se provavemente aquelas estrelas já estão mortas, é possível ver a curvatura da atmosfera e o tempo parece não existir, mas a lua está sempre lá...
    

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Por deveras



Quantas coisas perdemos por medo de perder
E quantas não ganhamos quando temos coragem de viver
Quantas coisas não guardamos com o medo de esquecer
E as que abandonamos com medo de sofrer
Quantas coisas pensamos com medo de fazer
E quantas não enfrentamos com vontade de aprender
Quantas coisas não fazemos pelo erro de apenas querer
E as que deixamos passar por não compreender

Quantas vezes não dormimos com o medo do amanhecer
E quantas palavras não perdemos com o medo de dizer
Quantas vezes não sonhamos para não enlouquecer
E as vezes que não brilhamos com receio de apagar
Quantas vezes arriscamos sabendo que vamos perder
E quantas vezes travamos na hora de correr
Quantas vezes nos falta ar nos deixando envolver
E as vezes que na solidão ficamos a nos remoer

Quantas pessoas nos esperam sem ao menos saber
E quantas não se afastam por não nos entender
Quantas pessoas se perdem dominadas pelo prazer
E as que se escondem temendo seu poder
Quantas pessoas não se limitam com medo de se constranger
E quantas que conquistam pelo jeito de ser
Quantas pessoas se fragilizam que chegam até adoecer
E as que não arriscam com medo de doer

Quanto amor não desperdiçamos por medo de nos prender
Quanto amor?

Quantas?
Quantos?

...Por deveras

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A distância de um olhar


As vezes eu falo de ocasiões fortuitas
Falo de emoções instantâneas
Grandes aparições
Quando há uma grande surpresa

O engraçado é quando eu prevejo o futuro
E apenas confirmo tudo que descobri em teus olhos
Apenas reafirmo aquele reflexo meu que vi neles
E uma vez mais me vejo sem graça

Sempre parece que estou no lugar certo na hora errada
Parece que perdi meu trem o qual me levaria a ti
Como se eu tivesse descido na estação errada
Voltado e subido novamente
Mas acabo chegando atrasado
Por perder-me no caminho
Nos desencontrarmos por uma estação

E cá estamos
Nos olhando
Nos reconhecendo

Como se nos tivéssemos visto em um sonho distante
Uma lembrança vaga mais profunda que uma memória
Algo que eu fui, algo que tu fostes
Algo de nós como um projeto inacabado
A sombra de uma torre que nunca existiu
Se não nos sonhos

Se não no espaço indeterminado de um coração

Se não na imensurável distância de um pensamento

Nosso amor ficou preso no infinito
    

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Nó(s)


Ciranda maldita
Dança macabra
Quadrilha insana
Na qual nos perdemos
Ninguém vê os passos
Dançamos vendados
Todos ligados com todos
Cada um de uma forma diferente
O problema são os nós
Os nós que formam o todo
O eu+você
O eu+ela
Tudo fora de compasso
Mas ao som da mesma música
Dissincronia organizada
Todos dando as mesmas tropeçadas
Alguns se trombam
Outros se abraçam
Há aqueles que se quebram
E os que caem sobre seus cacos
Mas a dança não para
Até que se desatem os nós
Até que termine a música
O silêncio é a morte
   

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Paz.Ciência

 
Difícil de lidar é o vício de amar
As pessoas reclamam que amam e desamam
E nem compreendem o que sentem
Eu sei que amo
Vários detalhes de várias pessoas
Mas não é paixão
Sei muito bem o que é essa armadilha
É amor
É zelo
É querer cuidar, proteger, compreender
Você pode deixar de me amar mas infelizmente o que eu sinto nunca vai mudar

Na incompreensão do amor próprio ou alheio
As pessoas mascaram com ódio o sentimento
Mas sabem que é só magoa de ter que viver
Limitado a apenas um desejo
As pessoas acham que nessa vida amor é só um
Seja a um Deus
Ou a um amante ideal
Mas o amor é todo
É tudo
E fingir que já não ama mais a pessoa porque um relacionamento acabou
É ilusão
Não se deixe confundir com paixão

Mas amor não é querer ter perto
Não se isso não faz a pessoa feliz
Parte o coração quantos amores vem e vão
Pensar que podemos prender
Acorrentar
Isolar a pessoa numa cúpula feita de nós mesmo
Tolice
Amor é o caminho para descobrir como amar
Quanto mais praticado
Mais facilmente se é compartilhado
E se aprende a perder para que possam ganhar
Aprende-se a esperar

Já amei tantas pessoas que sequer sabem
Que já virou um jogo ver quem descobre
Mesmo que amor próprio pouco me sobre
Só preservo o suficiente para que os sentimentos não desabem
Não sei se é válido esperar
Tentar aos poucos encantar
Se dedicar em um delicado castelo de cartas
Sabendo que apenas um vento é necessário
Para que novamente sobrem apenas pó e traças

Ninguém disse que seria fácil
Ninguém disse que seria
Ninguém sequer disse

É a maior experiência do nosso laboratório
É o maior negócio do nosso escritório

Só sei que é preciso paciência
E continuar praticando

...

Quebre a corrente
  

sábado, 10 de setembro de 2011

Fronteiras



Engraçado como as vezes viajamos o mundo a espera de que quando votarmos estará tudo diferente
Ou de que para onde formos nada será do mesmo jeito
Temos até a impressão de estarmos milhares de quilômetros distantes do que éramos
As vezes forçamos mudanças para ver se o mundo acompanha
Pior é quando o mundo muda e não acompanhamos
De qualquer forma nunca parecemos em sintonia, parte do todo
Corremos uma maratona para alcançar o ideal de mundo que criamos
Que supostamente voa e se transforma o tempo todo
Mas ele é sempre o mesmo, por mais que mudem alguns detalhes
Nossos olhos de barro moldados pelo passado ainda são os mesmo para ver o mundo
Tudo que vemos tem mais de nós do que o que realmente é

Talvez mudamos quando desistimos de nos transformar
Quando paramos de reparar se está ocorrendo ou não

O mundo pode mudar de forma quantas vezes for
Mas continuará sempre o mesmo enquanto não mudarmos
Nossos desafios sempre parecerão os mesmo
Uma meta inalcançável
Porque esses desafios nunca existiram
Nunca existiram paredes
Você atravessa o muro
Olha para trás
E não há muro
Nunca houve 

Si + Se = 0


Quantas vezes não nos arrependemos
Não falo de atos muito importantes da nossa vida
Cada pequena frustração
Criada só pela bela possibilidade de um "se"
Em muitos lugares minha mente já me levou
As vezes esse raciocínio é um trampolim
Mas não o aplique ao futuro
A algo seu
Ou pior, ao passado
A ínfima ideia de que algo poderia ser diferente
É um terror sem fim
A pequena esperança de que algo acontecer
É o inferno na terra
O poder de uma palavra que lacera os que pensam demais
Os que pouco pensam sequer sofrem desse mal
Não há brechas para conjunções subordinativas condicionais
Na prática não se elabora a teoria
Enquanto na teoria se pensa na prática
Cada vez mais é raro os que vivem de verdade'
Os que sabem esquecer os "se"s
Os que não procuram condições
Não procuram desculpas
Não negam o passado
O passado que não é um lugar distante
Mas sim uma parte do presente
Um pedaço de si
Ou a falta dele
Esqueçamos os "se"s e lembremos mais de "si"
Pois o que somos não pertence as condições
As probabilidades
Elas que nos moldem
Não nós simulando elas
Deixar acontecer
Fazer parte da equação

Ser a resposta final
      

sábado, 28 de maio de 2011

Coração não é tão simples


É sim, ele pulsa.
Não é bem assim. É verdade ele pulsa, mas pulsa carregando em seus glóbulos cada partícula de oxigênio que um dia inalei de seu doce pescoço, o ar de cada respiração ofegante entre nossos beijos e o carbono que sobrou de nosso amor…

domingo, 22 de maio de 2011

Borboleta da dor, a senhora do medo



As vezes, simplesmente me encontro inerte. Sem pensar.
Tentando retirar os espinhos do meu coração.
E o máximo que consigo são espinhas estouradas.
Sentado no beiral da janela me vejo flutuando.
Sonhando acordado com o pesadelo do mundo real.
Pensando em como de vez em quando me sinto tão livre de tudo que pareço estar em queda livre.
Mas percebo o quão acorrentado que estou.
Ao medo da dor.
A mais forte de todas correntes.
Afinal sem a dor, o que mais há para se temer?
E ela nos prende. Nos impede. Acha, que  nos protege.
Estou preso.
Só me sobra jogar os dados e tentar tirar números iguais.
Mas parece que esse par nunca se forma.
"Cuide do seu jardim e as borboletas virão".
De que vale uma borboleta que pousa em suas pétalas e que um dia vai embora?
Prefiro uma bela flor plantada em minha terra.
Um grito de paz em meio a minha guerra.

Estou apenas flutuando, admirando o céu, sentado no beiral da janela.
Bom, deixe-me dormir, pois não quero ter que acordar.
     

sábado, 14 de maio de 2011

Um dia. Três outonos.

 
Ponho a blusa, desço as escadas e paro frente ao portão. Hesito.
Toda vez é uma longa viagem, pois o tempo para ao caminhar e se abre aos poderes do pensar.
Abro o portão, visto o gorro, as mãos se encontram no bolso canguru.
Está garoando e o frio corta meu ânimo. É hora de andar.
Olhando para cada visão obtusa dessa cidade apagada pela neblina me pergunto o que é este vazio que sinto.

O solstício de inverno parece ter chegado mais cedo, ainda é maio e por volta das cinco horas já está escuro.
Nada melhor do que a escuridão para nos trazer a luz mental.
Esse vazio não faz sentido.
Como posso sentir um vazio se aquela pessoa pouco fez para preenche-lo, e quando foi levou apenas as migalhas que deixara?
Talvez seja o medo que esses três anos me fizera esquecer, o medo de ficar sozinho.
Meus problemas não são o escuro, monstros, espíritos ou demônios. Sou eu mesmo.
A fina camada que foi tirada, como pó em fotos antigas, mesmo que pouco preenchida escondia um sentimento.

Ter ficado só esses meses, me fez lembrar das décadas de solidão.
Evito pisar na parte mais suja da calçada, como se a sola do meu tênis não pudesse causar morte por intoxicação, e quase trombo em uma árvore por tanto olhar pro chão.
A quem quero enganar. As vezes penso que fui usado, mas não fiz o mesmo eu também?
Você foi minha ilusão de que posso ser tudo isso que dizia. Te usei como uma droga.
Me viciei em você. Cada gota. Pensei que não conseguiria aguentar sem você toda a pressão.
Não consegui, mas não quer dizer que não aprendi com a abstinência. Não vou ficar como as folhas que ainda verdes estão caídas no chão, voando ao meu caminhar.
E aquela doce casa de joão de barro que agora jaz abandonada também não sou eu.

A ladeira é longa e íngreme e talvez assim tenha que ser, porque do topo poderei ver o caminho que percorri.
Não me arrependo de nada, nós dois nos usamos, e perto do fim eu aprendi realmente a te amar, mesmo que não tenha tido tempo de demonstrar.
Estou voltando para casa. O lugar que estava cedendo para outros que não queriam ficar.
De frente para mim, vejo como tantas garoas a fizeram ficar.
Vou começar a restaurar a fachada, quem sabe um dia não te convido de novo para entrar.