sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Epitáfio



Fim.

Conforme a pá entra em contato com o solo úmido, sinto o impacto percorrer meus braços até meus ombros, duros com a tensão do fardo que carrego. Demorei muito, mas duzentas e oitenta e seis linhas depois eu pude finalmente dizer ao ar tudo que precisava ser dito. Agora minha boca é como o terno de madeira encostado ao lado, sob a chuva pesada que o enxarca. Minhas palavras foram gravadas em um pergaminho feito de meu próprio coro, colocadas em uma garrafa e solta ao oceano profundo, afundando com o peso das emoções expressadas.

Cavar na chuva não é nem um pouco fácil, a terra fica úmida e pesada, e a lama me suja até os joelhos, assim como meus antebraços. Mas não posso mais esperar a torrente passar, certas coisas precisam ser feitas, não importando as circunstâncias. Verbos desnecessários encheram o esquife de madeira maciça, sentimentos lacrados que tornam poucos os sete pés habituais. O erro é cavar um buraco que não se consegue sair, deixando o túmulo exposto, e você escondido. Após todo esforço, subir não é fácil, mas é o preço que se paga por cavar uma fenda tão profunda. De lábios selados está no caixão um anjo caído. A costura em seus olhos e boca são para assegurar que não vaze as memórias que com ele foram seladas.

É Samhain e não existe momento melhor para lidar com os mortos. Será a última vez que esse espírito amaldiçoado andará pela terra, voltando para seu confinamento na badalada da meia noite. Após passar as correntes em volta do caixote me certifico de trancar bem os cadeados. Não vale a pena subestimar a força do que ali está guardado, já fizera grande estrago no passado. Por precaução até mesmo suas mãos e pés se encontram atados para que não haja como fugir; está sendo enterrado vivo, é verdade, mas jamais irá morrer. Só precisa se manter aprisionado a muitos metros abaixo da terra, que aos poucos se renovará sobre sua cabeça até que seja esquecido que ali houvera algum abjeto sequer.

Seu dom da imortalidade é sua maldição, e suas asas foram cortadas, muito antes de ser necessário sumir com sua existência, pelas mãos de outro de sua casta. Ao som da tempestade vou descendo a corda até que ele seja coberto pela água que já acumula no fundo. Boa parte do trabalho já foi, sequer posso sentir o suor escorrer no meio dessa tormenta. As gotas caem com força e são geladas; passam limpando a alma e carregando a sujeira acumulada em minha aura enlameada.

Agora só falta jogar terra por cima, e a pá parece pesar uma tonelada neste momento, talvez pelo cansaço de já ter cavado, entretanto uma vez começado o serviço vou até o fim. A cada porção de terra que colide com a tampa feita de magnólia, ecoa fortemente pelas paredes da cova uma vibração que faz minhas pernas tremerem. Mesmo na metade do caminho ainda é possível ouvir os murmúrios da alma penada que resvalam em meus tímpanos como um sussurro bem próximo, até ser silenciado pelas últimas esmurradas da pá contra a terra; que findam o esforço. Enfim uma lápide é posta, com apenas os dizeres "Adeus". Nada mais precisa ser dito e com o término da chuva se percebe um silêncio sepulcral, nem mesmo o vento ousa assoviar.
Ninguém visitará o lugar, e flor alguma será deixada em homenagem. Limpo o suor do rosto, me levanto e sigo para o caminho que já trilhava; rumo ao incerto.

Começo.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Damned



I'm cursed with this cureless feeling
It will hurt me until I can't laugh anymore
It is known that time cure everything
But my hourglass timing is different
Three days become three autumns
A simple memory changes to a tomb

My sadomasochistic heart searches for conflict
Asks for proves of faith and trust
With open chest I let everything come in
Leaving an irreparable damage
And I insist in haunting my problems
Even when there's no more solution
Making the sorrow worst and tearing me apart

Accursed from irreversible love
Heartache bigger than my chest
That takes my breath away
But I will never quit as long as I can feel
Having no fear from regretting what I've done

Because damned I am
Until receive a bless from the one
         

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Intemperança



Não são só gotas de palavras
Criamos uma tempestade descontrolada
Transborda o pedantismo e encharca as mágoas
Trovões de sua raiva, raios de ofensa
O que sobrou pode se pesar em onça
Gotas de sutís perfumes do passado
Agora fedem ao bafo na bocarra da fera
O galho é curto e as garras afiadas
Não resta muito do que já é pouco
Mas quem provoca é quem sai mais ferido
E quem se sente provocado com pouco?
Só machuca, e sem pudor, feroz
O medo vaga por entre os ramos
Assim na floresta mais um fatídico dia
Sangue escorre por entre raízes
Que insistem em não sair do lugar
Por mais forte que seja o tufão
Mas por mais que a árvore se fixe
Agora ela morre, por ali ficar
Após forçar até o limite, toda seiva foi tirada
Murcha e se desfaz na água da chuva
Qualquer chance de recomeço parece morta
Se decompõe toda a vida que transbordava
O fim é parte do ciclo
E por mais escura que seja a noite
Mesmo que o abismo do céu te torne menor
E as nuvens encubram as estrelas
O passado há de se renovar
Não sobrará vestígio das vidas que ali passaram
A natureza aos poucos voltará a brotar
Com o tempo certo, lírios hão de florescer
Fragrância nova irá pairar no ar fresco
E desse inverno a primavera irá me salvar
       

domingo, 20 de outubro de 2013

Soledade



Caminhada no deserto
Tumulto formado de cada fração
Significado vago carregado pelo vento
Céu pontuado por estrelas
Ofuscadas por nossa própria luz
Na brevidade distante de tudo que já foi
Contratempo da maquina, rodar da engrenagem fora do ritmo
Intangível meta que nunca devia ter sido traçada
Clepsidra que marca os tempos modernos, fluído
Mutável e inconstante são as próprias concepções dos rumos
E no ritmo da vibração dos outros, pressão
Barômetro oscilante, a cada dia mais sufocado
A força centrípeta da modernidade
Aumenta a gravidade sobre todos nós
E o movimento não para
ATM nos espalha e nos divide
Como areia soprada pelo vento
Procurando no céu o brilho de seus grãos
     

domingo, 13 de outubro de 2013

Desproporcional



No fim, parece que nosso amor
não era só diferente,
Desproporcional

Do começo ao fim
Não se atraias por mim tanto
quanto eu me encantei por você
E também não creste em mim,
tanto quanto acreditei em você
Não vias potencial em mim,
como eu percebia em você
Nunca confiaste em mim,
como contei com você
Jamais me perdoaste,
como eu te absolvi
Sequer conseguiste me compreender,
como eu por várias vezes te considerei
Não me enxergavas em ti,
como eu me via em você

Em circunstância alguma julguei,
como várias vezes me incriminaste
Nunca entendeste minha dor,
do jeito que eu tantas vezes me esforcei para tal
Jamais tiveste a mesma paciência com meus problemas,
como eu em todas as vezes que procuraste por consolo
Sequer se entregaste a mim,
como me cedi por você
Não quiseste me esperar,
como por ti aguardei


Em nenhum momento tiveste fé em mim,
como ainda tenho em você...
    

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Odiosa Natureza Humana



Maldito seja,
Nossas posições poderiam estar facilmente trocadas
Afinal somos apenas organismos reativos ao habitat
Maldita sensação estasiante que nos faz ver o invisível
O amor só é acreditado enquanto sentido
O mundo só é real enquanto o percebemos
Malditos processos eletroquímicos
Conexões sinápticas que mudam tudo
Que criam o nada... que não existe
Maldita ausência no que nunca esteve presente
Dependência criada pela sobrevivência
Um necessidade de conexão... desnecessária
Maldito o jogo de poderes da vida
Ninguém quer ficar por baixo, dever de dominar
A moral anti natural nos fala para doar, ceder
Maldito seja o orgulho e um ego ferido
Lúcifer criador da soberba
Útil geradora de conflitos... inúteis
Maldito seja, humano
Escravo do conveniente, do interesse
No fim temos cérebros egoístas e corações prostitutos
Malditos sejamos!
                     

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Equilibrista



Andando na corda bamba 
sigo de um ponto a outro
Nova fase, 
novo caminho
Me equilibro
Olhar para trás já me faz oscilar
Virar e voltar seria difícil
Eu poderia,
mas não há nada o que fazer lá
A passagem foi fechada

À minha frente, apenas a névoa
Não sei para onde vou, 
porém não tenho escolha
Escolhi um caminho difícil
O vento é forte
A altura assusta e a neblina confunde
A corda segue inclinando-se para o alto
Eu escolhi assim
Cada passo se torna mais difícil
A vista fará valer a pena

Sinto a corda por entre os dedos do pé
O peso da vara de equilíbrio me lembra a todos eles
Os que me mantêm voltando ao centro
A cada vaivém
O eterno retorno
E você magicamente 
está sempre lá
Mesmo não estando

É sempre um perigo
Cair
No abismo da ilusão
Já cai uma vez
E você
Tão presente
Com sua voz
Vinda do eco
Me faz querer
Despencar
Em sua direção

Mas você não está lá
É só o eco

Será?

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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Solve et Coagula



A verdadeira alquimia consiste em transformar lágrimas em sorrisos, negativismo em positividade. Tudo está ai, basta rearranjar; dissolver e recompor.

"Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda" - Sigmund Freud

Se você não consegue nem mudar a si mesmo, o que dirá tornar outros metais em ouro. A pedra filosofal é a verdadeira vontade. Você pode encontrá-la para fora ou para dentro, acima como abaixo, os dois caminhos se encontram. Mas tem que buscar! Para fazer dela artifício de sua felicidade, como mantenedora; pois ela não é o final. É o caminho. Um caminho do qual você precisa fazer a manutenção do movimento, se não você se desvia.

"Viver é como andar de bicicleta: É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio" - Albert Einstein

Recuperar o equilíbrio pode ser desconfortável e pode demorar, mas é melhor que seguir se arrastando. Acreditar nas próprias potências, ou blefar com o mundo. Fake it until you make it. Você é o seu personagem, mesmo fazendo boas escolhas nem sempre os dados favorecem. Mas não pode parar de jogar. Não pode se esconder. Não porque isso não é viver, seria arrogância demais definir isso. Vida ou sobrevida, cada qual escolhe o que quer. Mas se não aprender as regras do jogo que acontece fora e por dentro, você continuará no ciclo dos mesmos erros.
A roda do dharma.

"Para amar é preciso ser vulnerável" - CS Lewis

Podem apontar para a lua e você olhar para dedo, você pode até admirar a lua e compreendê-la. Mas para alcançá-la é uma escalada. Muitos perguntam por ajuda ou atalhos, quais os melhores caminhos que os mestres podem ensinar. Por que não jogam uma escada ou uma corda aqueles que já estão lá em cima?
Como poderiam? Eles subiram sem ela.
Existem coisas que ninguém pode fazer por você. Escolhas. As quais todos insistem em achar algozes de seus azares, um culpado que influenciou ou alguém que deveria ter ajudado. Mesmo nas situações mais adversas você sempre tem escolhas! Mesmo que seja não escolher.

"A dor é inevitável, o sofrimento é opcional" - Carlos Drummond de Andrade

O que arde cura, mas nem tudo que cura arde. Dissolver no pensamento e recompor no sentimento. Após se desfazer e se analisar, pedaço por pedaço vem o trabalho de construir. De nada adianta, no fim, se entender sem ser capaz o suficiente de se reconstruir. Despertar a fênix interior sem medo de se queimar.

"O que você sabe não tem valor; o valor está no que você faz com o que sabe." - Bruce Lee

Ilumin.ação

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Fragmentos D'Alma



"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus."

Passos lentos ecoam pela adoecida casa, desgastada pelo tempo e já cansada de assim ser. Passos lentos levados por joelhos frágeis e pés calejados de contato com o mundo. Um senhor, beirando os três dígitos, caminha em direção ao seu aposento mais vívido e confortável, a sala de livros. Ele poderia chamar de biblioteca, mas prefere deixá-la mais aconchegante e humilde.

Dedos enrugados cobertos por uma fina seda viva se arrasta pelo nariz, já protuberante pela idade, empurrando a fina haste metálica de um pequeno óculos. Com a firmeza de seus ossos, e o que lhe sobra de força nos músculos, ele posiciona uma antiga cadeira de madeira escura, trabalhada em entalhes curvos, para o centro da sala. Não pega um livro sequer. Apenas senta-se e fica a observar tudo o que já leu; Tudo o que um dia soube e tudo no que um dia acreditou.

Divagação. Com seus membros cada dia mais enferrujados e seus órgãos sensoriais gastos, cada vez menos sensíveis, não lhe sobra muita coisa senão pensar. Em tudo que fez e deixou de fazer; o que poderia ter feito e o que quase aconteceu. De fato nem mesmo as probabilidades lhe atraem mais. Com o cenho comprimido, coçando os delicados fios brancos que lhe decoram a cabeça ele se concentra na admiração do todo.

Hipnotizado pela vista da colorida, mesmo que desbotada, combinação de barras verticais, se deixa levar pelos devaneios mais insanos. Seus olhos azuis vislumbram então uma ideia, como um relampejo em sua frente. Seria um raio na janela?

Sem saber se fora sua surdez ou desatenção que o fizera não perceber o barulho, ele se vira na cadeira e repara na janela aberta. Uma suave brisa de outono sopra agitando as cortinas translúcidas. Não está chovendo. Talvez não tenha sido um raio. Talvez...

O ancião então ajeita sua longa barba branca e deposita seu cotovelo ossudo no braço acolchoado da cadeira, apoiando em seguida sua cabeça preguiçosa. Então se põe a pensar:

"Afinal, o que posso dizer sobre a realidade; depois de ver coisas impossíveis acontecerem, e de ver o lógico ser o mais improvável?"

Ainda mais agora, com suas noções distorcidas pelos ciclos, não saberia diferenciar o irreal do real. Cada um desses livros amontoados, sobrepostos e encostados, são noções tão distintas da totalidade. Dentre os mais sinceros estão os de fantasia e ficção, que deixam transparecer os maiores anseios da alma humana. Desde garoto nunca subestimou o poder das palavras, e agora compreende melhor o que jamais concluíra depois de tantos versos, capítulos e compêndios.

Eis que pela janela entra um gélido sopro. Um Vento instigado pela Curiosidade se aconchega em seu colo. E sem perceber, o sábio senhor é pego por um sussurro:

As palavras possuem alma.

Não apenas isso - pensa ele brevemente - elas são parte da alma humana. Cada significado e sentido é uma fagulha da nossa incompreensão com nós mesmos.

Sábios monges e o voto de silêncio, sábios animais e homens das cavernas.

Não criamos algo que já não existisse em nós mesmos, apenas nos dividimos, nos dilaceramos. E aos poucos fomos nos perdendo, sem saber o todo que nos cabe, e o quanto cada pequeno detalhe que não compreendemos nos faz falta.

Cada palavra, da mais sofisticada até a mais genérica; até mesmo as que discordamos e odiamos, são partes de nós. E assim ele coletara, uma por uma, para então finalmente encontrar de onde vieram.

As palavras possuem vida.

Elas nascem, crescem, se multiplicam, transformam e até mesmo morrem.

Sua consciência experiencia uma tempestade de ligações. Uma Epifania aos poucos o desperta. A trama da existência inteira parece se contorcer. Ele sente seu corpo derreter ao observar cada palavra que um dia já lera fugindo dos livros, cada uma com sua distinta forma física. O Vento assustado então foge pela janela, rumando em busca de algo pelo céu noturno.

Em um galho, próximo ao local está a Curiosidade pasma com tudo que despertara. Seus grandes olhos de felino e suas orelhas de raposa tremem de excitação. Excitação essa cortada por um Vento gélido, que lhe dá calafrios. Um pequeno inseto voa a sua volta sem parar, zumbindo em sua orelha. É a Culpa:

- O que você fez?
- Não sei ainda. Estou louco para ver o resultado.

O Vento irritado percebe como se deixou levar por uma das criaturas menos confiáveis, passando feito um tufão, arrastando as folhas das árvores. Voando para bem longe dali.

- Interessante, não? - Pergunta a pequena criatura de dedos finos, com um sorriso discreto na boca, de quem não consegue conter o entusiasmo.

Mexendo em suas pequeninas chaves que carrega em sua cintura, a criatura foge da bronca e vai em direção a casa - Mal posso imaginar tudo o que pode acontecer a partir de então. - Sua caminhada é interrompida abruptamente por um muro cheio de portas e gavetas. Estática, a Curiosidade decide observar seu obstáculo, e sem exitar tenta uma de suas chaves finas e compridas na fechadura principal. Se surpreende novamente ao ver um manto liquido se projetar do muro formando uma silhueta humana de capuz e trajes de monge. Em sua mão o misterioso ser traz uma ânfora, com uma boca em relevo, a qual sua outra mão silencia.

- O que fizestes criatura tola?
- Segredo? O que fazes aqui? Por que me impedes? Não faço nada além de meu intento primordial.
- Basta! Percebes o que está acontecendo? Ele está alterando toda a trama do mundo, interna e externa. Não posso falar mais que isso. Enquanto não resolveres este problema, terás a Culpa em seu fardo.

Cavando as costas da Curiosidade com o intuito de se esconder e se enterrar para se esquecer, a Culpa encontra o Desespero emergindo e se arrastando. Preocupado e inseguro, ele decide correr atrás de qualquer um que pudesse prover algum tipo de ajuda, deixando a Curiosidade a se coçar.

Após sair das costas da Curiosidade, o Desespero corre perdido gritando por ajuda. Suas pernas tortas cheias de pequenos cortes tremem e seus joelhos ossudos se chocam. Em um dos ombros está a Ansiedade, um pequeno mamífero respirando tão rápido que sua respiração solta um barulho incômodo. A irritante criatura de olhos esbugalhados arrasta suas garras na pele de seu hospedeiro de forma inquietante. Do outro lado vemos a Preocupação que intercala entre cada "e se" uma bicada na cabeça do pobre Desespero.
Caído no chão, o disforme ser olha para frente e enxerga um pé de mármore. Levanta seus olhos e observa uma fria imagem, a lhe fitar de cima para baixo.

- O que está acontecendo? Nada está fazendo sentido.
- Eu, não... Eu não sei. A Curiosidade. Ela fez algo. A existência está em choque. Epifania toma conta dos pensamentos. O velho está se desfazendo. - balbucia com as palavras se atropelando o Desespero.

A Razão então demonstra interesse. Seu senso lógico agora monta o quebra cabeça e ela compreende o monstro, que agora a enxerga melhor: Figura de mármore e rosto neutro, seu cabelo retilineamente escorrido para trás. Em suas mãos porta um escudo e uma lança. Uma coruja lhe sussurra algo no ouvido e ela então afirma categoricamente:

- Tenho a solução! - Com um esfregar de mãos, razão cria uma borboleta azul e então a assopra. A borboleta segue em direção a casa, deixando um rastro luminoso de pequenos pulsos elétricos.

De volta a casa observamos como tudo começa a se desfazer em um redemoinho de estilhaços e farpas. Na antiga e detalhadamente entalhada cadeira, encontramos apenas um líquido escorrendo e se esparramando no chão. Logo a frente está a Epifania, de corpo belo e curvilíneo, mas com patas de bode e grandes chifres curvados para trás. Em sua mão está um cérebro com as vértebras se enroscando em seu braço. Ela saboreia com prazer a vibração que aquele órgão emana.

De súbito a porta é escancarada por outra beldade. De rosto mais severo com olhar concentrado e mãos intimadoras a apontar para entidade demoníaca.

- Chega desta libertinagem! Dê-me este cérebro! Pare com essa loucura!
- Ele que me chamou. Ele me queria aqui. Você nada pode fazer.

Uma rajada de vento agita as vestes da Sanidade. O que não acontece com seu cabelo devidamente preso em um coque. Ela sabe que nesse momento nada pode fazer. Está presa a lógica da sagaz Epifania, mas se vê surpreendida por uma chance de virar o jogo. Uma borboleta adentrando pela janela, zanza através da sala e para no encosto da cadeira.

Os ventos se agitam e com um turbilhão de fagulhas eletroquímicas, o pequeno inseto se transforma em uma jovem donzela de feições delicadas. Em suas costas ainda preserva enormes asas de borboleta.

Apesar de delicada aparência, sua cara demonstra uma firmeza de decisão. Ela encara suas companheiras de sala e chama a Sanidade mais para perto. Com um giz, desenha em volta da cadeira um quadrado equilátero, preenchido por um pentagrama com símbolos e hieroglifos jamais antes vistos.

- Prepare-se.

Epifania se vê com a Dúvida a lhe incomodar. Uma garotinha de cabelos cacheados, que não para de perturbá-la. Estática, não sabe o que fazer. Com a distração nem percebe que o cérebro agora se encontra a flutuar na cadeira com a coluna verticalmente alinhada com a base quase a tocar o acento, e o lobo occipital próximo ao encosto.

A Sanidade começa a se transformar, tornando sua pele brilhosa e reflexiva, se expandindo e se afinando. A Mente, batendo suas asas azuis, então começa a entoar um encantamento. Com seus braços arqueados e dedos bem abertos envolvendo a massa encefálica, ela decide rearranjar o que foi feito e mudar a noção recém concebida.

- Intelecto desfeito, corpo inato, personalidade rompida e ideias esquecidas. Quem vos fala é a Mente! É a alma! E lhes dou uma ordem. Recomponham-se. Se refaçam. O que um dia fora agora não é mais, e o que soubera sequer existiu. Invoco e rogo que me ajude. Ilusão!

O que se vê é algo próximo ao caos. Uma grande mistura de cores, cheiros, tatos, sons e sabores explodem, quase perdendo o controle. Tentáculos surgem e aos poucos vão se agarrando a cadeira, até que a Mente entoe:

- Para definir o mundo, lapidar as possibilidades, reescrever a verdade. Com a temperança de um deus, reconstruo aqui a maior das ilusões: A Realidade!

A janela bate gelando o sangue do ancião com o susto. Ele havia caído no sono. Já estava tarde e esfriava cada vez mais. Decidiu que era melhor fechar a janela e ir para o quarto, estava frio e não queria pegar um resfriado. Afinal de contas, apesar do cansaço de uma vida longa, ele queria, mais que tudo, viver. Sem saber de onde vinha esse ânimo todo, ele viu um último sopro sair pela fresta da janela ao fechar. Um vento se projetou acariciando seu rosto, como um suave beijo de boa noite. Era hora de deixar os livros de lado - pensou ele.

- Irei aproveitar a manhã seguinte. Quem sabe viajar. Já faz tanto tempo...

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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Libertas Quae Sera Tamen



Falam que se você não se amar 
ninguém te amará. 

Não é verdade. 

As pessoas te amarão, 
você só não verá, 
não se dará o crédito 
por merecer aquele amor.
Pelo medo irá duvidar 
dos sentimentos dos outros, 
os afastando aos poucos.

Quem não se ama 
não consegue acreditar no amor 
dos outros. 

Acha sempre que é interesse ou falsidade,
 prefere crer que está tudo errado, 
que tudo foi uma grande mentira. 
Alimenta o ciúme, 
a inveja e o ódio, 
se corroendo por dentro, 
jogando a culpa dos seus problemas 
em quem tenta ajudar.

Não existe amor 
para quem não se ama, 
infelizmente 
para os que estão em volta 
existe, 
e é desprezado.

Cada um é o capitão de sua alma,
dono de seu destino. 
O único que pode te salvar 
de suas emoções e defeitos 
é você mesmo...

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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Fiddler's Green



Em suas viagens por vezes ela se põe a pensar.
Sobre quão longe pode ela estar de seu querido amado.
Através do horizonte é possível apenas ver uma tênue linha que liga o mar e o céu. E como um pequeno borrão de tinta, ao longe é possível ver seu veleiro.
Nele vela seu maior segredo, a lembrança de um local tenro e irreal. O qual ela sempre pode visitar, mesmo parecendo tão etéreo e volátil.
Como um novelo ela se desenrola deitando sob o céu pálido, tão claro que lhe incomoda os olhos. Solta a deriva reflete se as coisas não são mais as mesmas, ou se tudo se mantém tão intenso apesar da aparente calmaria.

Com a noite chegando ela acende uma vela, e se deixa hipnotizar pela chama débil e tremula. Seus olhos vidrados revelam a chama interna, e mesmo com o vento aquela tímida centelha luminosa não se apaga.
Logo o fogo se revela uma borboleta ardente a fugir de seu suporte e com o olhar ela acompanha sem pensar em nada. Se deixando levar pela ilusão fantástica segue a borboleta com o olhar, sem se dar conta que já não está mais presa ao seu suporte, assim como ela.

Flutuando atrás daquela faísca dançante ela vê cair o véu da realidade, viajando para além de apenas memórias. Ela chega em um lugar, deslocado no infinito dentro de si mesma. Um lugar do qual ela nunca irá esquecer o caminho. Com a forma de um corvo, a viajante pousa sobre uma árvore dentro desse paraíso surreal. A paisagem é de um parque aconchegante, com luzes douradas e uma neblina sutil. Não está frio nem quente demais, e todas as árvores se encontram em tons vivos pontuadas por flores, que agora já forram o chão.
Se transformando em uma coruja, voando pelo parque, através de seus olhos de pássaro ela vê o eco de um movimento passado. Um vulto estava na ponte observando as pedras, outro subindo as árvores e outros nos brinquedos dos parques. São como passados acontecendo simultaneamente.
A jovem volta a sua forma normal ao avistar bem a sua frente, um garoto com a mão no peito de um sorriso suave. Balançando suavemente ele a convida a se aproximar, fazendo com que ela alivie suas dúvidas.

"Eu estou sempre aqui"

Sentando-se no balanço do lado ela se sente segura novamente, recostando-se sobre o ombro do rapaz. Os dois conversam por horas, dias, séculos. Ela desabafa seus anseios, sobre ter vontade de correr o mundo, mas ter medo de tropeçar, de cair no vazio do esquecimento. Ele se levanta, estende a mão e diz:

"Corre comigo"
            

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A sombra da lua



Em uma noite fria de ventos cortantes, os ventos assoviam ao passar carregando um vulto. A Lua se esconde timidamente por entre as sombras formando um fino "c" brilhante no céu profundo como um abismo para o infinito. Uma espessa neblina inebriante traz o cheiro silvestre despertando desejos escondidos.
No alto de um morro entre a selva de pedra e um pequeno bosque se encontra em repouso a presa do espectro, deitada sob um fino lençol de seda recebe a luz da lua pela fresta da janela aberta. A névoa passa suavemente pelo batente escorregando para dentro e se espalhando pelo cômodo. Junto, acompanhando o fluxo, vem a sombra de uma tentação, um íncubo vagante.

Ele fica por um tempo a observar a vítima, ouvir sua respiração, sentir a vida pulsando. O tempo passa e ele sequer percebe o quão hipnotizado ficou por sua beleza. A donzela de aparência delicada exala juventude em sua face angelical, de pele pálida como marfim e cabelos castanhos escuros como mogno. Feito uma boneca de porcelana,seu corpo está delicadamente disposto como se colocado com muito cuidado, coberto deixando-lhe a mostra apenas os ombros desnudos e o macio pescoço agradavelmente torcido para que a cabeça repouse sobre o travesseiro macio.

O estranho visitante se põe a flutuar sobre a tenra jovem e com um melodioso sussurro em seu ouvido invade sua mente, e adentra em seus sonhos.
O provocante íncubo então tenta, como nanquim em água, tirar toda a pureza da jovem, contaminá-la com seus venenosos impulsos. Mergulhando para as profundezas mentais ele a encontra e se prepara para começar possessão, mas se depara com algo que não esperava.

O semblante a jovem delicada muda quando ela abre os olhos e o encara, com um sorriso sinuoso nos lábios, se levanta e se aproxima do que até então era seu predador. O demônio surpreso congela e apenas observa, a cada passo a presença da jovem se tornar mais sombria e sensual. A turva visão onírica começa a tomar tons quentes e a névoa se torna leve e quente formando pilares de vapor. Os dois ficam a se encarar numa distância de um palmo entre os lábios, e ele compreende que está de frente para um igual, se aproxima e beija a súcubo que o seduz e uma forte sensação de calor queima por dentro das duas almas.

E com um susto um jovem rapaz acorda de seu sono profundo, olha para a lua crescente como uma cicatriz no céu, e se pergunta se a jovem do sonho era real e se ele a veria novamente...
      

sexta-feira, 8 de junho de 2012

αλήθεια


"Certo dia em minhas viagens mentais alcancei a grande porta, foi uma visão muito além de aterradora. A porta da verdade me chocou.
Outra vez me deparei alcançando-a e a reação foi extremamente oposta.
O quão incrivelmente maravilhosa a porta da verdade se prostrava em minha frente.
Por vezes e mais vezes minhas reações alternavam com as informações, com as luzes e sombras, em casos duvidei se a porta era a da verdade de fato, outras vezes duvidei que realmente tivesse a alcançado.

Mas de todas as vezes em que encarei a grande porta o que realmente mudou? Eu ou a porta?"

"Você é a porta."
           

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Garota das penas negras



Inconstante, inquieta, a garota de olhar penetrante e lábios pequenos cogita o quanto se desperdiça.
As vezes suas penas manchadas pela vida parecem espinhos, Schopenhauer sabe bem.
A necessidade de se sentir viva a torna impaciente, se apegando ao que a faz sentir, seja o que for.
A dor acorda de qualquer ilusão, ela que o diga, guardando suas dores em frascos e tomando em doses homeopáticas.
Ela transforma tudo aquilo em pérolas, fechada dentro de sua concha.
Transparece uma segurança e frieza que dão medo.
É defesa. É teste. É provação.
Mas não se limita a tal.
É um temporal.
É chuva pro bem e pro mal. ...com medo da calmaria.
Sabendo o quanto a vida é inconstante tenta fugir das utopias.
Não se mistura ao todo, não se mantém presa ao chão e não se perde no ar.
Voa inconstante tentando se achar.
Parece pequena esta ave, mas possui um semblante poderoso.
Conserva um fogo muito maior.
Tudo o que quer é não ficar pior.
Não mais.
Nevermore.

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Fendas

M.C. Escher - Covered Alley in Atrani, 193


Eu sei reconhecer pessoas amargas, ou melhor, amarguradas.
Esse leve toque cítrico que me desperta curiosidade, me atrai.

Café.

Sempre vi as pessoas como o mais transparente dos cristais,
mesmo que me vejam como uma turva imagem onírica sem muito nexo.

Disforme.

Acho que seja o natural, procurar semelhantes.
Alguém que conheça das mesmas dores,
que entenda de provações semelhantes.
Talvez em uma tentativa de me entender,
compreender o ser que está refletido nos outros.

Pessoas com os olhos que,
ao se encontrarem aos meus,
fazem até eco de tamanha profundidade.
"Se você encara o abismo por muito tempo..."

A batalha dos olhares é um desafio de empatia:
Até que ponto você pensa me entender?
Não sei, mas não me canso de tentar saber.

As pessoas podem esconder da forma que quiserem,
eu vejo as feridas através dos panos.
E isso mexe comigo, a mente é um labirinto,
porém eu não fico procurando a saída.

Reparo nas ranhuras nas paredes.
Tudo que passa deixa uma marca, um rastro.
Muitos nem notam, mas eu tateio no escuro,
e tento sentir a profundidade de cada fenda.

Jogo uma tocha no penhasco escuro,
e me vejo pegando a mesma tocha lá no fundo.

Talvez seja apenas eu me projetando nos outros até achar a forma correspondente.
Mas nada corresponde ao que se passa em minha mente.

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Not even a bang



The black hole of creation
Destruction to generate
Fear that shapes the love
Purifying agony
The great mix from an explosion
Scream in silence
Total consummation for renovation
Putting all elements together
Draining every energy
Absorbing the soul
Feeding the chaos
Reshaping the order
But what is being in a invisible place,
Where even the light can't pass through?
 

domingo, 8 de janeiro de 2012

Farol de Alexandria



Quão vazia é uma mente que se fecha a tudo que pode entrar com medo de mudar...

Novas informações sempre são boas, novas idéias, novos argumentos, novos dados, novos conceitos, novas perguntas
Achar que pode existir um quebra cabeça de uma peça só
Crer que o que se sabe responde a tudo, e para cada lacuna forçar a forma oblíqua
Fazer tudo se ajustar ao que pensa e não o contrário
Limitar o próprio universo e sua compreensão do mesmo
Não querer aproveitar o sabor do mistério, a diversão da pesquisa
De cada lapidada no mármore bruto que é nossa visão de mundo
Cada acrescento na receita alquímica do conhecimento
Sem medo de dosar o negativo
Ouvir as críticas e colocar a prova a firmeza do muro construído
Do templo erigido a partir das idéias
Não ter medo de testar seu argumento contra os que vivem sobre uma fortaleza de certezas
Descobrir suas falhas de raciocínio
Trocar cada bloco falho por um novo mais sólido
Formar uma torre que te permita ver mais além
Ver mais além no espaço e no tempo
O que está além
O que pode vir
O que ficou para trás
Ligar os pontos
Tecer a trama
Mas não deixar nenhum nó que não posso ser desfeito
Para se refazer se for errado
Sempre aprimorar as ligações
Queimar e recriar caminhos para os neurônios
Adicionar filtros e mais filtros, lentes e mais lentes
Ver não só além, mas também mais profundamente
Mais perto
Com mais precisão

Ainda assim todos preferem alucinógenos, repostas fáceis e confusas para não ter que entendê-las e assim manter-se seguro em seu frágil abrigo, porém grande, monumental, com todos segurando suas paredes para não cair. Uma estrutura de massa humana, com medo de soltar e o teto cair-lhe sobre a cabeça. E esse abrigo não possui janelas, não podem visualizar a incerteza, a construção e renovação das mentes ao redor, com sólidas pontes, e grandes possibilidades.

Basta soltar, e moldar por sí próprio...
   

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Inteligência Biológica do Fluxo da Vida



Nós não conseguimos nos ver parte da natureza, do planeta, de algo maior, mas esquecemos que somos seres pluricelulares. Somos células. Somos tão grande quanto o sistema que fazemos parte e simultaneamente tão pequenos quanto as partículas que nos compõem! A maior prova de que esse sistema existe. Nós somos parte de uma "inteligência" maior. Não falo de hiper realidade, deuses ou magia.
Nossa própria inteligência é biológica, evolutiva, toda mudança em nível de sociedade e intelecto dos indivíduos é evolução, nossos limites são delineados por nossas mutações, nossos talentos também.
Talvez as mutações aleatórias filtradas pela seleção natural não sejam tão aleatórias, talvez elas possuam um final, um conceito chave. Talvez nós o carreguemos no DNA como utopia, espelho do que seremos, queremos ser. Caberia ai Deus?

Ou seria apenas, e não por isso menos fascinante, a aleatoriedade, coincidências, uma grande experiência sem paradigmas, sem metas, então não caberia dizer os erros dela até que se revele o que sobrou, o que segue a frente. O fluxo das mudanças históricas é representativa de nossa evolução intelecto/biológica ainda acontecendo, de confronto com diferentes mutações, adaptações a diferentes ambientes, diferentes necessidades. E o nosso desejo, o que somos como indivíduos? Nossas crenças e visões de mundo?
Ainda acho que é pura combinação biológica de estímulos reativos ao mundo a nossa volta, fluxo de hormônios conectados por pequenos filamentos que processam tudo. Somos, maquinas, somos animais, somos seres reativos, somos o que cabe na vontade do tempo, da vida, do mundo, do universo.

O mais sensacional é ainda assim sermos capazes de "questionar" todas nossas amarras, pensar essa evolução, enxergar os trilhos, mesmo que seja apenas os que ficaram para trás, sermos capazes de idealizar os próximos passos, dar sugestões para a receita da próxima safra, de qual caminho seguir, mas não somos nós que escolhemos, bem sabemos, não ainda, talvez. Quem sabe um dia viremos maquinistas, mas isso chega a ser inimaginável, o que seria ter controle disso, criador ou manipulador desse poder extremo que é a vida, em níveis muito acima do que pensamos controlar hoje em dia, coisas que não cabem ainda a nossas percepções.

Ou somos nós criadores inconscientes, de universos a todo momento, por que aliamos poder a criação? Talvez ela também possa surgir de formas simplórias, de situações fortuitas, universos paralelos de pura imaginação. Cada um é um cientista, um artista, um criador de probabilidades, um gerador de resultados para essa grande pesquisa.
   

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Um simples carvão



Está chovendo e quase não sinto as gotas por conta da profundeza do buraco. Olho para cima e me pergunto "quando foi que comecei a cavar?". Creio que tenha sido quando fiquei cansado de cuidar do meu jardim, quando comecei a pensar que debaixo da terra podia encontrar jóias raras.

Entretanto agora sequer tenho forças para continuar cavando.
A água escorre pelas laterais do fosso, arrastando terra junto com ela. Me encontro sentado, pensando na sorte de pedras preciosas que encontrei no caminho, apesar de nenhuma brilhar para mim; ou não tenha reparado devido a pouca luz.

Aqui nesta fundura a pressão é grande, são milhares de metros abaixo do nível do mar, minhas unhas estão todas em carne viva de tanto cavar. Sou gradativamente soterrado e empurrado cada vez mais para baixo, e a pressão continua a aumentar. É tanta que me sinto comprimir, solidificar e endurecer, tanto quanto diamante.

Mas quem iria cavar para me encontrar?
   

sábado, 5 de novembro de 2011

De saco cheio



No alto de um morrinho, perto de um barranco, algumas árvores para quebrar o vento, poucas nuvens para que saibamos que ainda existem, baixa luminosidade proveniente da cidade e lá no alto a abóbada celeste.
Apenas dois seres deitados admirando o céu e tentando imaginar a noção do quão longe estão as estrelas, e se provavelmente aquelas estrelas já estão mortas. É possível ver a curvatura da atmosfera e o tempo parece não existir, mas a lua está sempre lá.

Então, tanto faz.

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