quarta-feira, 12 de março de 2014

A Era do Ruído



Eu sei o que não quero
Não sei onde desencontrar
Eu sei o que não encontro
Não sei o que quero

Não quero sua informação
Feita sob medida para ser demais
Sem nenhum valor agregado
Todos querem se informar
Até não saberem nada

Não quero seu conhecimento
Um sistema que se autoajuda
Soluções fáceis jogadas no irreal
Todos são gurus infames
De sua própria realidade

Não quero a felicidade
Aquela industrializada, enlatada
Com corante artificial
Todos acham que querem
Até provarem do veneno

Eu quero o meu foco
Não quero a sua agenda
Eu quero me organizar
Não sigo seu calendário

Não quero que me entenda
Que possa me definir e me embalar
Separar e classificar
Todos querem fazer parte de algo
Até não saberem o que são

Não quero seu pacote de valores
Na minha prateleira eu faço a seleção
Partido e religião
Todos abraçam o que não sabem
E aceitam o que nunca quiseram

Não quero seguir a unanimidade
A voz de Deus é burra e feroz
Jesus personalizável (vem em três cores diferentes)
Todos se sentem fazendo parte de algo
Por não saberem ser indivíduos

Eu não quero seguir o fácil
Não quero falta de sentido
Eu quero formar o meu próprio
Não sei o que eu quero

Mas eu descubro

  

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Disinganno

Disinganno - Franschesko Kvirolo


O que tu fazes reverbera
  O que dizes repercuti
    Queria eu não ver
      Ou melhor, não querer

Mas sinto, e percebo
  O que fizestes com o que sobrou de mim
    Sujando e queimando os fragmentos restantes
      Espalhando ao vento como se nada fosse

Páginas manchadas de desvalores vãos
  Se confirmara meu maior temor
    Provoquei, vi e vivi; não venci
      O amor não venceu, mas sua validade

(só não pra mim)

Gostaria de apontar as inconsistências
  Como se surtisse algum mero efeito
    Nada de errado aconteceu afinal
      Uma vez mais, um desengano, nada fatal

Me julgue fraco como quiser
  Só não vejo em ti a mesma força
    De encarar os fatos de forma crua
      Ver que nunca fui culpado por ilusão tua

E das minhas me culpo, num ciclo infinto
  Gradativamente eu tento, e aprendo
    As vezes creio que já nem sinto
      Por pouco tempo, um segundo pacífico

(quem dera)

Antes pensasses como algo vão e tolo
  Com leveza os problema tão mínimos
    Antes visses como algo grandioso
      Relevando o que não vale a pena ser sentido

Tudo sempre fora assim, mal encaixado
  O avesso no verso e o vice no mandato
    A cada passo distante, um descompasso
      Uma total distorção do leproso passado

Quem dera eu, não te afetasses nem mais um pouco
  Assim não me afetarias com tuas reações desmedidas
    Dispersemos, aprendo a relevar, continuando a velha luta
      Em algum momento vou ter de me superar

(...assim espero)

Gostaria que tiveste capacidade como a minha
  Não te julgo, nunca foi contra a sua palavra
    Esse sempre foi o problema, elas sempre valerão mais
      Nada jamais sobrepujará teu orgulho

Mas o ego é uma coisa solitária
  Que assim seja, e assim será
    Continuo desatando nós, nós por nós
      Incrível quantas voltas dei em tão pouco tempo

A rede não me segura mais, estou livre
  Como sempre estive, os grilhões desfaço
    Condenado a responsabilidade de tal arbítrio
      Do começo ao fim, no total desenlaço

(desExistência rExistência)

   

domingo, 2 de fevereiro de 2014

tormenta

black wave - kuldar leement


a verdade é que tenho andado doente

tu sabes, aquela dor aguda
dizem que acontece como um raio
você não vê, não ouve e não sente
é tudo tão rápido que apenas se da conta
quando se percebe estirado no chão
enrola a língua e sequer pode falar

não é exatamente esse momento que importa
a eletricidade quando passa com força brutal
deixa marcas e efeitos que só serão sentidos
quando tudo passar

ou melhor
quando não passar

definitivamente me afetou a visão
quando veio o segundo raio
sempre pode cair duas vezes
no mesmo lugar
mas a segunda vez é totalmente diferente

o que ele deixa
ele leva

a não ser as marcas e efeitos
então você fica doente

com a visão prejudicada
te confundi em todo lugar
me iludi tentando te achar
sabe, podemos ser muito criativos
em sonhos de esperança
afim dos efeitos atenuar

pintei a lua em todo lugar
afinal, já era dia, não podia mais te encontrar
minha maior escuridão era solar
pois me tirou teu brilho

garota, estou doente
e como gostaria não estar...
e tu não estás

tu sempre consegues se curar
não te afetou da mesma maneira
tua doença é outra,
talvez eu só tenha sido uma das ilusões
mas passo rápido, como um relâmpago
sem o solo tocar
nem sentes
e o trovão só vem para incomodar

outro efeito é a perda do tato
não é possível lidar com outros da mesma forma
simplesmente falta a sensação do toque
minha mão é pesada
procurando o que já teve
sem sentir o fogo queimar

sei que existe cura
deve haver uma cura

se ao menos eu parar de me envenenar
com pequenas doses de doces sonhos
fico a expectativa de um por do sol
para o céu obscuro revelar
mas sei que assim como tem sido
será uma noite sem luar

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

realidadeCadência

Roberto Ferri


sou eu ou sou a arte?
tenho substância enquanto vivo
ou vivo apenas enquanto
a morte se faz substância?

me faço na construção de meu intento
porém me desfaço na paz e me reinvento
de que vale a poesia dos vales sombrios
perante a dualidade de um sentido pleno?

me faço enquanto faço
queria mesmo é me desfazer
não precisar sentar e sangrar
em frente a máquina de escrever

espero, não; almejo
queria poder dizê-lo
mas a verdade é que
não tenho para quem dizer

tais letras de cores rubras
escorrem sem sentido
por entre as engrenagens
da tão imperfeita máquina

o som de cada tec marca o tempo
gera um vácuo do desperdício
gera uma matéria de aproveitamento
mas ainda se faz,
sem me deixar ser

sou enquanto destruo
tanto quanto quando crio?
a perspectiva do que consegui
soa nada mais que o eco das perdas
sons não proferidos
e mais marcas deixadas

constante se faz a vontade
de dizer aquela maldita palavra
enquanto faço rodeios
por não ter flechas em minha aljava

ritmo inconstante das teclas
me perdendo no compasso
sempre no momento errado
atrasado, pé atrás de pé
a cada passo

um sacrifício sem deuses
votação sem eleito
realidade em prisma
sonho desfeito

faço
finjo
ajo
crio

nada

   

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Insomnia

Edward Poynter - The Nymph's bathing place

Logo tu, 
Tímida caçadora de Ártemis
Com teus banhos proibidos escondendo uma beleza pura
Apesar da ferocidade de um disparo de arco e flecha

Oh ninfa de tão belo e profundo lago
Se banhando na seiva láctea do brilho eterno da lua
Refletido sobre a superfície de tua macia pele de seda
De cabelos e olhos escuros como o cosmos a noite, 
Mas com um brilho vívido amadeirado da floresta
Os mesmos dedos firmes que apontam a seta mortal 
Se movem suaves por entre as ondulações do cabelo molhado
Diana te abençoa sob o reflexo de suas águas

Quando vês estás nadando na própria lua encarnada em tua graça
Se fazendo una com tal beleza estonteante
A graça de teus movimentos cria marés, 
Teu corpo sobre a superfície gera ondas 
Que são ecos de teu toque sutil
Alcançando as areias de oníricas praias
E como move teu corpo com suavidade!
Parece levitar por entre as estrelas encantando com teu brilho celeste
Antes fosse tão próxima quanto se faz parecer

Ao me devorar com tua iluminada presença, ouvem-se apenas uivos
Te toco com muito esforço com o prolongamento de um sentimento
Através da vibração de encantadoras notas
Melodias geradas pela influência de tua gravidade, 
Que vibram as cordas da harpa das emoções
Afinal, o que poderia um sátiro perdido na floresta
Ter com tua presença intocável? 
Distante e ao mesmo tempo tão marcante

Talvez não seja a lua, 
Talvez seja um reflexo, 
Talvez seja ilusão...
Oh céus, tu és a lua!

E em teu nome canto uma canção, 
Te puxo dos céus com um laço de versos
Te faço matéria, de carne, osso e alma novamente

Caminhas então no mundo terreno longe das nuvens
Mas a lua, ora, a lua nunca saiu de ti

 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sweetheart


"Baby, I see poetry in your lines,
I feel colors in your curves,
I hear melody in your soul"
  

sábado, 11 de janeiro de 2014

Você


Todos estão sempre querendo
Mais do que se fazem querer
E nem sabem o que querem
Queria que entendesse
Simplesmente apenas quero
Alguém que me queira
Porém queira quando quero
Veja bem, não digo de momento
Dando importância apenas
A qualquer querer meu
Quando te quero
Só quero que me queira
E isso só me faz querer mais
É uma questão de alinhar os quereres
Quer queria o que isso queira dizer

    

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sardas


Algo se perdeu no cheiro daquele abraço
Nos deixando sem graça naquele embaraço
Um pedaço da realidade, feito de imaginação
Uma porção de sonho vazando do coração

Falar pode criar cenas verdadeiras das mais belas
Algo em tua profunda iris me liberta de minhas celas
Mas creio que o segredo do amor está no tocar
Teu corpo em contato com o meu nos faz harmonizar

Vejo uma miríade de cores invisíveis em tuas pupilas
Então por um breve instante meus temores aniquilas
E cá estamos no silêncio infinito de um breve olhar
Para ao fim do contato minha nobre ilusão desfolhar

Irradia teu sorriso meigo, tão neutro que se faz malévolo
Somos tão insignificantemente diferentes no frívolo
E tão significantemente semelhantes no importante
Ainda assim o que nos aproxima te torna mais distante

Desperto lentamente de mais uma hipnose onírica
Voltando a realidade que nunca fora minimamente lírica
Sonhada por um coração quase sempre confuso
Me faço consciente novamente de meu ser obtuso

Quem sabe um dia não me procure
Então de antigas feridas eu me cure
Enquanto procuro avidamente me encontrar
Me perdendo nos teus mistérios a desvendar
   

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Y



Me encontro sentado, com as costas arqueadas feito um idoso,
Debruçado sobre os joelhos respirando ofegante e desgostoso
Em minhas mãos uma memória e um instrumento de violência.
Manchando os poemas aos meus pés escorre a sua essência

Cartas e mais cartas espalhadas pelo chão, amassadas
Cartas estas seladas, nunca lidas, jamais enviadas

Nem pareço ter a idade que tenho, carrego o peso de cem anos
Já você, leve como uma vespa continua astuta e jovial
Deixando um rastro de destruição e ignorando os danos
Devorando inocentes corações, como um voraz canibal

"Vê se vira homem!"

Ainda lembro de suas últimas palavras amargas e cruéis
Impensadas feito o rubro sangue que sujam estes papéis
Dia após dia tentei compreendê-las, isso eu te juro
Enquanto navegava num barco à deriva sem porto seguro

Não houve rum que me fizera afogar o seu ódio insolente
Não houve aguardente que mantivesse quente meu coração doente

Essa frase abalou minhas estruturas feito explosão de dinamite
Tais palavras me remontam à lembranças em que fui desafiado
Me foi passada a ideia de que homens ultrapassam o limite
Em todas as vezes nunca entendi plenamente o significado

"Você não é homem!"

Muitas vezes foi esperado de mim atitudes negativas
Um macho alfa coleciona histórias de iniciativas
Em brigas e confrontos queriam ver agressividade
Até mesmo fazer o mal, jamais aceitando a passividade

O homem traz o fardo e o privilégio de ser o grande conquistador
Ter menos pudor, é o desbravador, tem de ser dominador

E logo você não esperava menos que toda essa premissa
Meu maior erro foi tratá-la com todo respeito como uma igual
Trazia consigo um forte desejo de ser domada e feita submissa
Apesar de tudo em você era forte esse instinto animal

"Você nunca vai ser homem"

E então o fatídico dia, te encontro em casa sozinha
Não faço cerimonia, entro sem pedir ao menos licença
Você surpresa me insulta e diz que não mais a tinha
Mas a sua cultura me ensinou a não tolerar tamanha ofensa

Queria ciumes e ser usada, deixo ao lado uma câmera e pego a cinta
Você queria isso, não minta, apenas sinta, quase implorou faminta

Você tenta lutar, mas sempre reclamou de eu ser mais forte
Talvez nesse papel de homem eu me encaixe, veja que sorte
Você queria ter fotos sensuais, com o perigo de cair na rede
Não se preocupe com vergonha, trouxe vinho pra saciar sua sede

"Você é um monstro!"

Talvez então finalmente tenha entendido o que é ser homem
Nessa sociedade machista, tem que ser covarde e botar medo
No abate há quem mate a carne que os outros comem
Com a faca em punho, esta noite serei o açougueiro neste enredo

Recito Bukowski enquanto em desespero se encolhe no canto
Me comove seu pranto, com uma foto me espanto, e eu sinto tanto

Jamais aceitaria me tornar isto, que admira e te apavora
Então em um corte profundo pus minhas tripas fora
Me sentindo honrado por não me deixar cegar pela amargura
Você se afasta o máximo que pode, como eu deveria ter deixado, antes desta loucura

"Eu te odeio!"

Isso me tranquiliza, ainda sente algo afinal,
Perdi total controle de tudo que carrego comigo
Fiz das tripas coração, para não te fazer mal
No fim sempre tivemos em comum o inimigo

Só agora reparo nas cartas que joguei ao chão
Não fui são, sem qualquer razão, foi tudo em vão

Em meio a tantos erros e arrependimentos insanos
No fim entre razão e sentimento, somos nada além de humanos
Mesmo sabendo que não fiz escolha alguma certa
Ainda me preocupo...

"...Você deixou a porta aberta"
   

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Flagelo das sombas

Moon - Tomohide Ikeya


Sofro de um mal sem cura
Não tem médico que diagnostique
Não há curandeiro que resolva
Nem santo que expurgue com milagre

Já tentei toda sorte de alopatas
Inexiste terapia que descomplique
Me afogando em doses homeopáticas
Procurei em mim o antídoto do veneno

Quanto mais vasculho, mais intoxicado fico
Não sou o primeiro a sofrer por isso
Nem mesmo o último por isso morrer
Estou infectado com o parasita sem nome

Sutil como uma poderosa bactéria
Resistente como um vírus ou uma ideia
Se alastra por todos meus nervos
Envolvendo meu coração e cérebro

Droga potencializada por emoções
Emoções alimentadas por memórias
Memórias sustentadas pelo futuro
Futuro faminto por perspectivas

Não fora sexualmente transmitida
Tampouco adquirida pelo ambiente
Há muito tempo em minha alma plantada
Cresce forte com o tempo, paciente

Tempo este, cruel e traidor
Relativo quando lhe interessa
Absoluto para despertar pavor
Brincando com sua foice sem pressa

No terreno já seco e desabitado
A praga se desenvolve livre
O arado se encontra abandonado
A terra aos poucos não é mais fértil

Sua poda está atrasada
As raízes já se fazem profundas
Finos ramos pretos se espalham feito veias
Grossos fios negros de cabelos enrolados

Ao horizonte apenas a tempestade redentora
Rego o silvado com a cinza água pútrida
É o que posso juntar da sujeira do céu
E das profundeza líquida das pedras

Em meio a escuridão então percebo
Há todo um novo habitat obscuro
Que ainda assim se faz fluído
Soturno, porém vívido e belo

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Amnésia



Não me lembro de mais nada.

Te esqueci completamente.

Não lembro mais das tuas qualidades, tampouco lembro dos seus defeitos. Não lembro daquilo que te irritava, sequer lembro do que gostava. Não lembro como se comportava, nem da forma como pensava. Não lembro mais das cores de esmalte que mais gostava, das roupas que mais usava ou do chinelo que adorava. Não lembro do que odiava em si mesma, ou como tua aparência, apesar de te incomodar, me fascinava. Não lembro das tuas inseguranças, nem da tua timidez, tampouco da tua risada.

Esqueci do calor do seu corpo e de tuas bochechas coradas.

Não lembro da música que te fazia sorrir, nem da série que acompanhava. Não lembro do seu animal de pelúcia favorito, não lembrou do seu autor predileto ou do filme que amava. Não faço mais ideia de qual chá que gostava, ou que receita fazia bem na cozinha. Não lembro a forma como me olhava, nem seu peso sobre meu peito. Não lembro da tua voz, tampouco da forma do seu sorriso. Não lembro como teu animal de estiação te alegrava, não lembro do seu jeito criança nem da tua forma de ser desajeitada.

Esqueci do seu cheiro e esqueci do seu sabor.

Não lembro mais dos nossos momentos, sequer quanto te amava. Não me lembro dos presentes que me dera, nem das carícias com as quais me agraciava. Não lembro dos meus erros, muito menos de minhas promessas abandonadas. Não lembro do seu corpo, não lembro do seu toque, não lembro do seu sexo, muito menos se era por mim apaixonada. Não lembro das tuas cicatrizes do passado, tampouco das tuas histórias e mágoas. Não lembro do seu quarto, da cor do seu lençol ou como tuas roupas ficavam dobradas.

Esqueci do seu abraço e esqueci do toque de seus lábios.

Não lembro mais de seus segredos, nem de tuas decepções ou amores anteriores. Não lembro como me preocupava, do quanto me desculpava ou das coisas que dizia. Não me lembro do quanto achava que éramos perfeitos um para o outro, sequer em como não aguentei a pressão e estraguei tudo. Não lembro dos meus temores, das tuas angústias nem de nossas discussões. Não lembro do quanto te decepcionei ou dos insultos que recebi. Não lembro do quanto sofri, tampouco do quanto te fiz sofrer.

Esqueci de meus atos imaturos e de tuas infantilidades.

Não lembro.

...

Confuso em meio a fragmentos desconexos de memórias que nunca me deixaram. Me sinto perdido e sem mapa ou bússola para me direcionar. Tropeço em sensações que nem sei de onde vieram, emoções que brotam do solo sem sentido aparente. Sigo vagando sem rumo, morando em mim mesmo sem endereço.
Procurando algo que um dia foi você, o esquecimento me livra da falsa presença, mas me mantém lembrando da ausência sem falta.

Mas esqueço, esqueço e re-esqueço.

Esse esquecimento que me afeta... e eu nem lembro o porquê.

Não lembro nem que é por você.

  

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Persinette



Jogando para o lado começo a terapia de desapego
O corte é corajoso, apesar de tímido para o que desejo
Começo cortando as laterais, tirando aos poucos
Abro mão da completude da forma por igual
Deixo um respiro para aliviar com o vento fresco
E já me esqueço dos fios soltos que caem ao chão
Memórias distantes as quais não quero mais

Quantos anos não viram as pontas de meu cabelo?
Acompanharam uma longa parte de minha vida
Hoje tão compridos se tornam um grande peso
E tu, que o admiraste como se aceitasse a meu passado
Com seus dedos a alisar com admiração a minha história
Sem se importar com as pontas duplas ou falta de brilho
Dissera que o queria tão longo quanto nosso amor

Mantenho o corte por um tempo, mas não basta
Ainda me sobre muito de você em cada fio
Afronto seu amor por meus longos cachos
Corto a identidade do que um dia eu fora, para você
Suavemente me liberto das milhares de finas correntes
Desprendo-me da ideia de que um dia gostaste de mim
Rompo os vínculos com decorrido destino

Sem arrependimentos posso sentir de volta
A leveza do mundo esquecer e pelo mundo ser esquecida
Me desfazendo em sutis linhas negras em tênue queda
Posso sentir melhor o vento, e respirar mais tranquila
Por muito tempo engoli suas desculpas cabeludas
De fio em fio eu formei um bezoar que descreve nosso amor
Um emaranhado de desentendimentos internalizados a incomodar

Mas não mais, se foi ao vento e até mesmo o chão já se faz limpo
Mas nem se crescesse de novo, tudo estará renovado
Não há mais pontas soltas nessa história
Nem longos fios enosados
Não há mais você
Nem nós
Jamais

domingo, 8 de dezembro de 2013

Zero



No escuro abissal do éter espacial uma figura dantesca de proporções titânicas queimava feito uma estrela demoníaca.

Para meu total terror, preso naquele breu infinito sem conseguir sair do lugar, pude perceber que a odiosa presença possuía o que pareciam ser olhos; apesar de a sensação que tive é de que eram cavidades ocas. Seus olhos de buracos-negros transmitiam uma perversidade tétrica e o descomunal corpo celeste me fitava concentrado, o que gerou em meu âmago o maior dos horrores que um ser humano é capaz de sentir.
Girando em movimento perpétuo, lento e contínuo, esperava pela morte enquanto o temível astro mantinha as cavidades oculares obscuras em minha direção, e uma certeza crescia cada vez mais: de que estava a me encarar. Se fazia presente uma sensação de aproximamento sutil, quase impossível de notar.

Levaria uma vida inteira até que tal profana existência me puxasse com sua inexorável gravidade, o que demonstrava o quão longe encontrava-me do maligno titã espacial. Ainda assim seria uma questão de tempo até que fosse devorado por suas chamas negro-púrpuras oscilantes, formadas por fusões nucleares incessantes. Tal ser emanava toda sorte de sentimentos e sensações negativas, como um orbe formado de todo o mal universal concentrado em um único ponto blasfemo.
Sou incapaz de quantificar a quanto tempo me encontro perdido em meio ao vácuo, e sequer lembro como aqui vim parar. Poderiam ser anos, décadas, séculos, eras, éons; não consigo definir. Talvez a massa do objeto possua propriedades que o façam distorcer mais o tempo do que o espaço, senão já teria sido puxado feito um marinheiro preso a uma âncora em direção as profundezas do mar.

É possível que seja tudo um sonho, só isso explicaria. Esse era meu norte na tentativa de me manter são, enquanto as estrelas mantinham seu movimento constante na abóboda giratória. Por vezes tinha a sensação de estar parado e o universo que na verdade se mantinha em movimento a minha volta.
O frio sideral despertou ideias jamais desejadas antes, subitamente me peguei a pensar que não seria de todo mal ser engolido por tal ente herege. Ao olhar diretamente em seus ímpios olhos vazios me senti desfazer em camadas. Traje, pele, carne, ossos e alma separados pela velocidade do movimento no qual me encontrava em direção ao globo em brasa. Em resposta aos meus pensamentos, anunciando sua consciência viva, a entidade passou a exercer uma força misteriosa de atração sobre meu corpo, de tal forma que pude sentir algo como vento, mesmo não existindo ar a minha volta.

Ao me aproximar do centro da esfera sobrenatural, me senti desfazer, enquanto minha mente explodia em uma epifania de pseudo-memórias de outras vidas e existências, se mesclando e montando uma espécie de quebra-cabeças feito de fotos. Para então todas serem queimadas por um fogo negro que aliviou meus pensamentos, limpou minha memória, desfez minhas ideias, desfragmentou minha personalidade e anulou minha existência...

domingo, 24 de novembro de 2013

Armadura



Passos vagarosos são ouvidos ao longe, abafado pelo farfalhar das folhas ao vento apressado. Está um contrastante clima quente de brisa gélida e em toda a volta enxerga-se apenas a maciez pálida de uma densa névoa, da qual não se pode enxergar sequer o céu, tornando impossível distinguir dia de noite. Apenas se faz possível sentir o chão ou vê-lo chegando bem perto, dissipando a opressora neblina. Toda a noção de espaço e tempo se distorce no meio da paradoxal escura claridão; tudo é branco, em tantas camadas que se torna um gradiente de cinza.
Determinado, segue a procura de algo, passos firmes tateiam à espera de que o chão não lhe suma sob os pés. Ao encontrar um marcação, em forma de cicatriz na terra seca, se prepara para escavar o local demarcado. A procura se torna árdua enquanto segue perfurando o solo com um profundo buraco, por onde a névoa escoa feito um líquido fantasmagórico.
As retiradas de terra cessam ao sentir um objeto sólido ressoando com o impacto. Uma pedra negra e opaca, o universo aprisionado em um diamante, que logo é retirado e trazido à superfície. Não era exatamente o que esperava, mas o surpreende no que se tornara aquilo que um dia vira afundar.
Por mais inflexível que pareça, o artefato pode converter-se maleável em altas temperaturas.
O som de uma abertura metálica e pesada lentamente sendo aberta soa pelo ambiente, e do buraco proveniente de seu peito jorra lava que escoa para o buraco a pouco escavado. A forma bruta de carbono é então mergulhada no fogo líquido que a faz ficar flexível, emanando um fogo púrpura que ilumina o vapor a sua volta. Como barro flamejante é manuseada e trabalhada por mãos calejadas, que não se importam com sua temperatura abrasante. O esforçoso trabalho artesanal se da entre pancadas e compressões, dobras e apertos exaustivos até que aos poucos se tornem formas anatômicas grosseiras. A água que lhe escorre pelo corpo devido ao esforço resfriam os luminescentes objetos formados a partir da peça original, engrossando ainda mais o nevoeiro. Com extremo cansaço e muitas queimaduras o artífice se deita ao lado de sua obra e descansa por incontáveis e imperceptíveis seis dias e seis noites.
Com a ferida da terra já cicatrizada e o tempo limpo, no qual agora se faz possível enxergar as estrelas, levanta-se para observar o arredor. Nada reconhece, mas não sabe se andara muito, ou se sua memória que já não é mais a mesma. É possível enxergar centenas de marcas e feridas, e uma abertura no peito que agora jaz vazia e profundamente escura.
De forma ritualística prossegue encaixando as peças do exoesqueleto moldadas para encaixar em seu corpo cansado. O traje lhe cai como uma luva, se adaptando como uma segunda pele e uma peça sobressalente se faz adequada; uma lâmina obscura sendo embainhada encerra a ritualística. Aos poucos se da conta de que o tempo está fechando, e ao reparar na luminosidade da lua observa não mais possuir uma sombra. Infla os pulmões professando os seguintes versos:

"Visto de volta o bom e velho pessimismo otimista
Onde espero de cada circunstância sempre o pior
Sem temer a má sorte do futuro desconhecido
Sendo assim por vezes surpreendido positivamente

Faço de minha densa sombra minha arma e armadura
Forjada no ardor de minhas dolorosas emoções vividas
Resfriada em meus obscuros prantos e odiosos pesares
Feita à minha imagem e semelhança, meu complemento

Que todo o meu passado, seja glorioso ou vergonhoso
Nenhuma vez seja negado, ou por mim desmerecido
Que as batalhas vindouras não sejam jamais temidas
Oh! Luminosa lua espectral que me observa dos céus

Não possuo mais treva, tão pouco sou cheio de luz
Me faço humanamente cinza, puramente indecifrável"


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Julgamento





"Tolo aquele que julga
Quer por ponto final
Onde não conhece
sequer uma vírgula
Prefiro ser reticente"

Ideias do Último Atlante

     

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Vate

Günter Brus - self - mutilation

Nunca confie nas palavras de um poeta

Não o permita divagar, mantenha a réplica direta

Doces versos feitos de amargos venenos
Visão romantizada de um mundo imperfeito
Impossível crer em sua hipocrisia assumida
Falsidades que são por deveras sinceras
Expressando sentimentos de terríveis quimeras

Com suas dolorosas mentiras verídicas
Disfarçadas em odiosas poesias apaixonadas
Rogador intenso de tola fé desesperada
Autêntico admirador do puro desprezo
Na esperança de manter o sentimento aceso

Verdadeiro além da conta para ser real
Amor caro demais para ter qualquer valor
Transforma a realidade numa grande ilusão
Fazendo da distância uma sutil proximidade
Com buscas que almejam além do mar
Sem sequer conseguir sair do lugar

Impossível compreender seu coração
Uma alma desvairada e sem limites
Transitando entre os vivos e os fantasmas
Não é um homem, um imaturo pedante
Amargo demais para atrair com sua jovialidade
Infantil demais para encantar com sua maturidade

Fera traiçoeira acorrentada, mas perigosa
Como confiar se nele é possível sentir o cheiro
De seus medos e mais profundos anseios
Fascina com luz para esconder tamanha sombra
Não faz sentido, tão pouco se faz sentir
Tristonho menestrel mudo, habilidoso e prolixo
Tornando cada detalhe da vida num grande capricho

Sujo, desgastado pelo tempo
Desbastado nos golpes da vida
Pueril vagante, insensível vulnerável
Perdido em si mesmo, sem mapa ou tesouro
Frívolo emotivo de extravagante retrato
Mártir insano traidor de si mesmo
Declarando teatrais angústias a esmo

Rasgue e queime cada uma destas páginas

Jamais acredite em uma só gota de suas lágrimas
       

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A distância do tempo



Corroo
Corró
Corro
Até as pernas não mais aguentarem e os joelhos tremerem
Tropeço em pedaços de palavras não ditas e mal entendidas
Percebo que corri em círculos e estou novamente a teus pés
Círculos estes cada vez maiores, tentando ir cada vez mais longe
Mas com a força gravitacional de uma estrela tu me puxas de volta
Quem sabe um dia esteja longe o suficiente para me desprender

Naiade
Nada
Nado
Para a superfície, sem referencia em uma noite escura
Minhas braçadas intensas apenas fazem bolhas de ar
Sequer noto que me encontro indo cada vez mais fundo
Sendo lentamente arrastado por uma correnteza salgada
Mas talvez seja natural, o jeito como as coisas acontecem
Quem sabe essa mesma correnteza me leve a praia prometida

Vogo
Voia
Voo
Asas frenéticas se agitam com força no ar rarefeito das alturas
Vagando perdido na escuridão inebriante de uma noite fria
Sempre voltando em direção a tenra luz hipnotizante
Na busca pelas alturas sou atraído pelo calor conhecido
Mas tudo o que me faz é queimar e arder repetidamente
Quem sabe dessa vez eu não me perca e alcance a lua

Sem perceber me vejo seguindo fantasmas em uma caça inútil
Esperando respostas de um enigma eternamente incompleto
Tudo isso como forma de provação, em reação a tua descrença
Meu coração sofre de alzheimer, esquecendo do que já percebi
Mas quando consigo clarear a visão, corro, nado, voo, vago, fujo...
Quem sabe alcance a liberdade de minha prisão interna

Me afastei com o intuito de comprovar que sempre voltaria
Tua aproximação evidenciou o quanto nunca estiveste presente
Apenas me cerquei de ilusões, um castelo de belas expectativas
Acreditei que o que tu sentias era relativo ao quanto duvidavas
Mas fora um ledo engano, era apenas incredulidade, ceticismo
Quem sabe fosse apenas testes e desafios, provações insanas

Cada vez o sol de tuas lembranças nasce mais fraco em meu céu
Abraço a noite como a única verdade, da qual nunca me distanciei
Quanto mais escuro, mais bela é a vista das miúdas estrelas cintilantes
De repente todo o espaço, não é um espaço vazio, um vácuo interno
Sem "mas"... Nada mudou, as coisas só são como são, sem delírios
Eu sei que o tempo é sábio e tudo tende a mudar, constantemente

...não preciso sequer acreditar
      

domingo, 3 de novembro de 2013

Presa


Por um bom tempo trocam olhares
Até que os dois se encontrem próximos
O rapaz se encanta com tamanha beleza da fera
Enquanto o bicho observa-o atentamente
Ele chega a ter total controle em suas mãos
A leoa vê em seu treinador seu confiável dono
- Vinde a mim animal selvagem!
- Sim, mestre!!

O domador se encontra totalmente maravilhado
Fica sem palavras com o quão formosa é a criatura
Sequer se da conta do perigo que é domá-la
Tudo se encontra sob controle enquanto se entendem
Entretanto a felina o analisa a todo momento
Sua memória afiada grava cada pequena falha
- Venha maravilhosa criatura, sabes quem sou eu?
- Não há como esquecer, eu lembro do seu cheiro

Por alguns instantes se deixa levar pela confiança
Se esquece que o feroz ser anseia ser dominado
Sem isso todo o circo rui e o fim é inevitável
A leoa o julga trespassando-o com olhares
Ao tentar disfarçar não percebe que ela se guia pelo olfato
Ela percebe seus desejos mais profundos
Mesmo que ele tenha total controle sobre eles
O artista circense é sincero e a trata como igual
E isso não corresponde às necessidades da fera
Que parte em sua direção para atacá-lo
- Você é fraco, eu vejo seus defeitos!
- Por que fazes isto? Não sempre nos demos tão bem?

Uma patada da criatura lhe tira uma porção de sangue
Ele reage com a cadeira em mãos e estala o chicote
Não à faz mal algum, ainda assim a provoca ainda mais
Sua fúria intensa alimentada pela insegurança não cessa
Algo entre a posse e o medo a instiga a lutar
O jovem domador recua, saindo e fechando o gradil
- Assim não vai dar certo, olha como estou ferido!
- Você não é homem o bastante! Fuja, covarde!

Em um último ato de coragem, ele entra bruscamente
Ao ver a besta agora surpresa, recuando e confusa
Se aproxima vagarosamente abrindo os braços
Totalmente exposto e ficando cada vez mais perto
Joga o chicote para o lado e a encara no fundo dos olhos
- Eu estou aqui, não tenho medo!

- Pois deveria!
Em um salto o magnífico ser se posiciona a sua frente
E em uma mordida agressiva arranca-lhe a cabeça
     

       

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Memento Mori

...
Óbito
Lágrimas
Acidentais
Sem palavras
Um mal começo
Envenenamento
O sangrar dos egos
Nada lhe direi mais
Valores exacerbados
Imagens contrastantes
Julgamentos incessantes
Não é fácil viver na divisa
Onde se é um sábio para uns
Porém um ignorante para outro
Que é corajoso por suas escolhas e
Covarde pra quem não as compreende
O que tu dizes pesa demais, desbalanceia
Não me venha com essa de não se importar
Com opiniões alheias, ou impressões passadas
Ninguém é uma ilha e tu não deverias assim me julgar
Se lembre Catrina que para a morte não somos diferentes
No fim o que marca não são os erros distraídos ou atos falhos
Mas sim o ódio consciente de insultar, humilhar e nos outros pisar
"Mea culpa, fora um crime passional, não tive controle das emoções"
Não adianta, os pregos já ficaram marcados na cerca da alma
Tudo o que sobra é apenas um pedido de que se importe
Pelo menos que seja o suficiente para não continuar
Criando machucados, enfiando o dedo na ferida
No fim tudo isso fora desnecessário demais
Um capricho dos sentimentos infames
Reação perante seu orgulho ferido
A caveira range os seus dentes
Um incômodo sem cessar
De um fantasma passado
Uma cisma teimosa
Dor que demora
A passar
Afinal
...
     

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Tirocínio



Oh lanceiro que me penetra o peito!
Se pudesse lhe agradeceria pela lição
Sem demora gratificá-lo-ia pessoalmente
Por esta dolorida injúria a mim atirada
Mesmo que da pior maneira possível
Mas talvez se faça necessário assim o ser
Afinal é preciso morrer para renascer
Tu não apenas enfiaste o dedo na ferida
Tive o coração profundamente estocado
Porém tudo que escorrera da laceração
Foram lágrimas negras duma antiga infecção
Foste rude, é verdade, e não foi pouco
Contudo para um entendedor devotado
Apesar de torto, o significado é apreendido
Ainda que vindo dum pechoso dedo em riste
Oh lanceiro que me penetra o peito!
Se pudesse lhe agradeceria pela lição
Será que a sua fora aprendida?